Brexit

A madrugada de uma nova era ou um dia triste?

A madrugada de uma nova era ou um dia triste?

O despertar de uma nova era ou um dia triste? O Reino Unido amanheceu, nesta sexta-feira, numa espécie de esquizofrenia, com os foliões seguidores do eurocetico Nigel Farage a parecerem ser os únicos em festa, com um Governo pró-Brexit a preferir um discreto adeus e com metade da população, entre ela a dos três milhões de europeus - ou mais, ninguém sabe, nem os Assuntos Internos - de europeus que decidiram que a Europa deles seria na velha Albion e no enclave norte-irlandês do lado de lá do mar da Irlanda, a admitir, no mínimo, uma certa melancolia.

No máximo, um duro golpe no sentimento de pertença que se cria quando metade ou mais de uma vida se constrói longe das raízes.

Sérgio Tavares, português, consultor, vive na Escócia e agradece ao destino por isso. "Se residisse na Inglaterra, talvez já cá não estivesse". Porque, para lá de tudo, das promessas de uma economia florescente porque livre de amarras a regras europeias que travam os ímpetos individuais, das promessas de um maior controlo da imigração, das promessas da proteção dos direitos de quem cá se instalou, para lá de tudo isso há o ódio".

Sérgio é também o conselheiro das comunidades portuguesas em Glasgow. E, sobretudo, membro ativo do movimento The3Million, nascido para defender esses tais cerca de três milhões que ninguém sabe ao certo quantos serão. "Há gravíssimos problemas de crimes de ódio. Fundamentalmente na Inglaterra e no país de Gales, as pessoas não se sentem seguras", conta-nos, apontando o regresso às origens ou a fuga para outras latitudes de gente que já cá vivia há muito. "Têm-me dito que já evitam falar a língua materna na rua. As agressões verbais e o 'volta para o teu país' já começam a ouvir-se".

Neusa Silva, gaiense de gema, vende Portugal ao balcão de um minimercado de Portadown, no coração da Irlanda do Norte. O racismo é o que mais a assusta e parece ser aquilo que ouve, também, de quem lhe compra o remédio para a saudade (até francesinhas congeladas e molhos engarrafados tem expostos). E sim, garante, há. Até porque ali a comunidade portuguesa constrói-se muito do Portugal multicultural que nasceu das ex-colónias. "Tenho dois filhos. Se isto piorar..." Desistir é sempre uma opção.

A madrugada

"Este é o momento em que a madrugada desperta e levanta-se a cortina sobre um novo ato." As poéticas profecias são de Boris Johnson, o primeiro-ministro que cumpriu a promessa de concluir o Brexit. São parte do discurso gravado - discreto, como se disse acima, o momento da saída foi marcado por luzes na exclusiva Downing Street, com uma receção íntima no número 10 e bandeiras hasteadas à roda do Parlamento, onde Farage irá festejar sem barulho, porque ali é proibido - de Boris Johnson. "Esta é a madrugada de uma nova era em que não aceitaremos mais que as vossas oportunidades de vida - as da vossa família - devam depender do lugar do país em que cresceram", seja lá o que isto quer dizer.

Certo é que nada palpável se sente para lá da firmeza das promessas. E que a luta de quem precisa de garantir direitos continua. Sérgio é perentório: o esquema de residência (Settlement Scheme) não é a panaceia apregoada. "Não é de todo satisfatório". Porque a segurança que o Reino Unido dava a quem o escolheu para triunfar leva muitos a serem complacentes e a adiar a candidatura ao estatuto de residente.

"E as consequências de estar fora do sistema podem ser extremamente sérias." A deportação não é o fantasma, há que acreditar na boa fé do Governo, mas trabalhar passará a ser ilegal, arrendar casa passará a ser impossível, por aí adiante. Por isso é que o The3Million advoga uma alteração do conceito de candidatura para o de um registo "que deixe de ser esta espada de Dâmocles sobre as pessoas que podem falhar". E por isso é que o português vai, no âmbito do Conselho Português das Comunidades, pedir a vigilância de Portugal e dos outros 26 europeus, porque a luta do movimento perdeu arena com a mudança de Governo e a disciplina imposta por Boris Johnson ao seu gabinete. E porque há coisas tão inusitadas quando o facto de estatísticas oficiais, divulgadas pelo Parlamento britânico, darem conta de que 103% dos residentes portugueses candidataram-se ao Settlement Scheme. Ou 138% dos búlgaros. E o sistema "tem dado provas de que pode falhar, fica em baixo, não reconhece pessoas".

A melancolia

As guerras entre os brexiteers e os remainers estão definitivamente de parte. A guerra agora é a da defesa dos interesses dos prós-europeus neste futuro próximo, para garantir uma via feliz a longo prazo. Ed Darvey, líder do partido Liberais Democratas, falava anteontem de coração partido. Mas determinado: "A história Europeia do Reino Unido não acaba amanhã" (ontem). O dia 31 de janeiro de 2020 foi apenas um dia cinzento, com abertas. Mesmo no céu de Belfast, capital da Irlanda do Norte, onde o divórcio depois de 47 anos de um casamento com altos e baixos (não são todos assim?) é sobretudo um divórcio que pode separar 22 anos de uma união de facto que teve o condão de acalmar ódios numa ilha demasiado pequena para divisões. E é aqui que a negação da separação mais se fez notar, com protestos convocados para pontos sensíveis de uma fronteira que já ninguém sabe bem por onde passa, tal foi a necessidade de esquecer o sangue que ela fez correr. A única fronteira terrestre que separa, desde as 23 horas de ontem, o Reino Unido da União Europeia.

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