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A outra vez que o Capitólio foi invadido foi há 207 anos

A outra vez que o Capitólio foi invadido foi há 207 anos

Em 1814, centenas de tropas assaltaram a casa da democracia em Washington, pilharam, destruíram e puseram-na a arder. Foi a única vez, antes de 6 de janeiro de 2021, que o Capitólio foi sequestrado. Mas aí, as tropas eram estrangeiras.

Foi um acontecimento extraordinário, há mais de dois séculos cravado na História: em agosto de 1814, era então presidente dos Estados Unidos da América o "pai fundador" James Madison, milhares de tropas assumiram o controlo das ruas da cidade de Washington, onde enfrentaram pouca ou nenhuma resistência, e marcharam triunfantes em direção a Capitol Hill. O objetivo era invadir o Capitólio, histórico edifício neoclássico, construído 21 anos antes e já instituído como Congresso, o centro legislativo do Estado americano que alberga o Senado e a Câmara dos Representantes.

Assomando à entrada da "casa do povo", as tropas, que seriam cerca de quatro mil, subjugaram o fraco cordão policial e entraram com grande facilidade pelo Capitólio adentro.

O que sucedeu a seguir foi muito rápido e obedeceu a um plano controlado de caos: portas, janelas, mobiliário, quadros, estatuária, milhares e milhares de livros da Biblioteca do Congresso foram usados como combustível, ateados em chamas e deixados a arder.

Foi o mais grave incidente até então na História da democracia norte-americana - a jovem república dos EUA tinha nascido apenas há 38 anos, fruto da Guerra da Independência sobre o Reino Unido -, com a "casa da democracia" a arder em destruição física e simbólica.

A Mansão Executiva, nome anteriormente dado à Casa Branca, também foi gravemente atingida pelas chamas, assim como o estaleiro naval da cidade.

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Semelhanças atrás na História

Com muitas e assustadoras semelhanças entre essa invasão, sequestro e destruição e a ocorrida agora a 6 de janeiro de 2021, há uma diferença fundamental entre os dois pontos negros da História separados por mais de 200 anos: a invasão de 1814 foi feita por tropas estrangeiras que obedeciam ao Rei George III de Inglaterra; e a invasão desta semana foi perpetrada por cidadãos nativos norte-americanos lealistas de Donald Trump, o presidente negacionista ainda em exercício, derrotado pelo democrata Joe Biden, que já foi oficialmente certificado pelo Congresso e que tomará posse a 20 de janeiro.

Na altura, há 207 anos, a Grã-Bretanha justificou que a queima do Capitólio era uma ação de retaliação direta pelo incêndio de York (hoje Toronto) executado pelos norte-americanos dois anos antes.

Ambos os eventos ocorreram na chamada Guerra de 1812, que começou quando soldados americanos invadiram o Canadá, país então controlado pela coroa britânica e puseram York em chamas. O conflito foi descrito como uma "segunda guerra da independência" - a primeira, conhecida como Guerra da Revolução Americana, decorreu entre 1775 e 1783 e opôs as 13 colónias americanas independentistas às forças colonizadoras da Grã-Bretanha, que foram derrotadas, levando depois à instituição dos Estados Unidos da América, considerada a primeira democracia liberal constitucional moderna.

A América sempre dividida

Nessa "segunda guerra da independência", os EUA abriram o conflito com os ingleses justamente na altura em que Napoleão, imperador da França, marchava já sobre Moscovo; os EUA pensaram - erradamente - que a França derrotaria a Grã-Bretanha nas Guerras Napoleónicas...

Após a derrota e abdicação do líder francês em 1814, os britânicos enviaram então o tal contingente de quatro mil soldados incendiários através do Atlântico para conquistar Washington e deitar fogo ao Capitólio, o símbolo máximo da jovem democracia.

Andrew Lambert, professor de história naval no King"s College of London, disse ao jornal "The Independent" que a guerra, assim como os graves distúrbios desta quarta-feira, mostrou as fissuras cada vez maiores da sociedade americana.

Embora o esforço de guerra recebesse o apoio do Congresso recém-eleito em 1812, o norte e o leste do país eram manifestamente contra. "A guerra expõe, o que para mim é muito relevante, divergências fundamentais entre diferentes setores da sociedade americana", diz Andrew Lambert, explicando que essas divisões abriram o caminho para a Guerra Civil Norte-americana, que estalaria anos depois, entre 1861 e 1865, dividindo o país entre Norte e Sul, os da União e os Confederados.

Aquele historiador inglês acrescenta que depois de os Estados Unidos terem "perdido muito mal" a Guerra de 1812, os líderes americanos embarcaram numa campanha de propaganda repleta de "disparates nacionalistas" e apelos ao "America first" ("América primeiro"), um slogan que Donald Trump popularizou de novo desde 2016, quando venceu o seu primeiro, e único, mandato presidencial de quatro anos.

"Isto parece-vos familiar?", pergunta Andrew Lambert referindo-se às tentativas de Trump de inverter a sua derrota eleitoral com invocações - falsas e sob falsos pretextos - de nacionalismo e de patriotismo.

Na verdade, aponta o atento historiador, esses dois esforços para refazer a história foram retratados lado a lado nesta invasão dos trumpistas ao Capitólio. Foi justamente quando um desordeiro que empunhava uma bandeira vermelha que dizia "o meu presidente é Trump" foi fotografado dentro do edifício a agitar o estandarte à frente de um enorme quadro do século XIX.

Esse quadro é uma pintura famosa de William Henry Powell que retrata a vitória dos Estados Unidos na Batalha do Lago Erie, em setembro de 1813, um dos poucos sucessos navais desse conflito contra um império estrangeiro.
Então como hoje é impossível não reparar na ironia histórica que se repete: as ações dos invasores insurgentes de quarta-feira são também, como reparou Andrew Lambert na sua revisão histórica para o jornal "The Independent", uma "reação visceral de um grupo da sociedade que sente que a maré da História está contra eles".

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