Entrevista

Rashid Khalidi: "A Palestina foi submetida a uma guerra colonial de conquista"

Rashid Khalidi: "A Palestina foi submetida a uma guerra colonial de conquista"

Os pais e os avós de Rashid Khalidi estiveram entre as centenas de milhares de palestinianos obrigadas a abandonar a sua terra em 1948. O palestino-americano especialista em assuntos do Médio Oriente usou os arquivos da família, as suas experiências pessoais e as ferramentas de historiador para escrever "Palestina, uma biografia: cem anos de guerra e resistência".

Já era um dos mais reputados especialistas no Médio Oriente e na questão israelo-palestiniana e professor de Estudos Árabes na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Americano, mas descendente de palestinianos proeminentes, Rashid Khalidi mergulhou nos arquivos familiares, cruzou essa informação com a sua experiência pessoal (entre outras ligações à política e à diplomacia, foi assessor para as negociações de paz em Madrid, nos anos 90 do século XX), e juntou-lhe os seus dotes e créditos como historiador para escrever "Palestina, uma biografia: cem anos de guerra e resistência".

Um dos argumentos centrais do livro de Rashid Khalidi é que se trata de guerra de conquista colonial, assumindo o autor que a sua abordagem é a de um historiador diretamente afetado pelos eventos que descreve. A propósito do lançamento do livro em Portugal, pela Ideias de Ler (Grupo Porto Editora), respondeu, por escrito, a algumas perguntas do Jornal de Notícias.

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Ao ler "Palestina, uma biografia: cem anos de guerra e resistência" é percetível que se trata da uma obra de um historiador, mas também está presente o ativista da causa palestiniana. Qual desses dois papéis teve mais peso no conjunto do livro?

Como refiro no livro, envolvi-me politicamente desde muito cedo, e isso reflete-se na narrativa dos eventos em que participei ou que testemunhei. Como qualquer outro historiador, escrevo da maneira mais objetiva possível, mas a partir de uma perspetiva específica. No meu caso, a perspetiva de um palestino-americano que foi diretamente afetado pelos eventos que analisa. Duvido que tal pergunta fosse feita a um historiador israelita politicamente ativo.

Costuma dizer-se que a História é escrita pelos vencedores, no sentido em que é sempre a versão dos vencedores que prevalece. Acredita que pode contribuir para que se imponha uma visão mais equilibrada do conflito entre israelitas e palestinianos?

Espero sinceramente que este livro contribua para criar uma visão mais equilibrada, num tempo em que a narrativa dos "vencedores" está sob um escrutínio mais crítico do que nunca.

Na sua versão dos últimos 100 anos, a Palestina foi alvo de seis declarações de guerra. É possível apontar uma delas como a que teve mais impacto na situação atual do povo palestiniano? E já agora qual destas seis declarações de guerra teve mais impacto em si e na sua família?

Provavelmente a relativa à grande revolta do final da década de 1930 e à Nakba [o êxodo de centenas de milhares de palestinianos, na sequência da guerra de 1947-1948, que deu origem ao estado de Israel], pois os meus avós e a sua família foram forçados a deixar Jafa [antiga cidade portuária árabe entretanto integrada no município de Telavive], e os meus pais não puderam retornar à Palestina como planeado (o que resultou no meu nascimento em Nova Iorque), enquanto outros membros da família se espalharam pela região, na Jordânia, Líbano, Síria, Egito e Golfo.

O percurso de um povo acaba por depender, de alguma forma, da capacidade ou incapacidade demonstrada pelas suas elites. E pode dizer-se que a sua família (ou pelo menos alguns dos seus membros) fazia parte da elite palestiniana. O seu livro arranca, aliás, com uma prova da presciência de Yusuf Diya (o seu tio-trisavô) relativamente à ameaça do sionismo. Mas, se foi capaz de prever, não foi capaz de prevenir, e muito menos combater, a crescente influência do sionismo. A tragédia palestiniana fica também a dever-se ao falhanço dos Khalidis?

Deixo duas coisas claras no livro: primeiro, que as elites palestinas, incluindo membros da minha própria família, foram incapazes de enfrentar o desafio da duplicidade e repressão imperial britânica e do colonialismo sionista; e, em segundo lugar, que essas forças foram esmagadoras durante o período entre guerras, quando nenhum povo, exceto os irlandeses, conseguiu libertar-se do controlo colonial.

Há um conceito determinante que atravessa o seu livro: a Palestina foi alvo de uma guerra colonial de conquista. Isso quer dizer que não reconhece um direito histórico dos judeus a terem, na Palestina, o seu próprio país?

Que a Palestina foi submetida a uma guerra colonial de conquista e que Israel foi criado através da expropriação dos palestinianos são factos incontestáveis. Isso significa que uma solução justa e duradoura para os problemas criados por essa conquista dependerá da descolonização e da igualdade entre os dois povos, judeu/israelita e palestiniano/árabe, que agora vivem na Palestina. O direito de um povo a um país não pode depender da negação de um direito similar, ou de outros direitos, a outro povo.

Independentemente de justificações históricas ou bíblicas, olhando para a situação presente, sabemos que Israel não vai desaparecer. Tão pouco parece realista pensar que vai abandonar a sua política de expansão colonial, como se percebe na Cisjordânia (o número de colonos continua a crescer e já são cerca de meio milhão de pessoas). Os palestinianos estão condenados a diluir-se e a serem absorvidos por um Grande Israel? Ou ainda há razões objetivas para acreditar na viabilidade de uma nação palestiniana independente?

Tendo em conta as suas ações desde 1967, Israel criou uma realidade de "um estado" na Palestina, com uma autoridade israelita soberana, um sistema de segurança israelita, e um sistema de leis israelita desigual e discriminatório de dois níveis, controlando toda a Palestina, onde vivem dois povos. Como é que esse sistema evoluirá é impossível de prever. O estabelecimento de um Estado palestiniano independente, que Israel fez todo o possível para bloquear, é improvável no futuro próximo. Como é improvável a evolução de Israel na direção da igualdade e justiça para todos que vivem sob seu domínio (para não falar dos palestinianos expulsos da sua terra natal). No entanto, os palestinianos continuam a resistir à opressão a que estão sujeitos, o statu quo é inerentemente instável e insustentável, e inevitavelmente sofrerá sérios desafios nos próximos anos.

Ainda sobre Israel e sobre os dias de hoje, houve árabes israelitas que ficaram. E, apesar das dificuldades, da segregação, com o tempo, foram conquistando importância política. Ao ponto de, hoje, um dos partidos árabes de Israel ser crucial para uma coligação de Governo. Não será esse o melhor caminho para os palestinianos: a afirmação política dentro de Israel?

Os palestinianos dentro de Israel vêm-se cada vez mais como parte do povo palestiniano e reconhecem o quão severamente são discriminados, mesmo que muitos deles procurem envolver-se no sistema político israelita para obter vantagens para sua comunidade. Eles são o segmento mais astuto do povo palestiniano, no que diz respeito à compreensão da natureza do sistema de controlo de várias camadas sob o qual vivem os palestinianos em diferentes partes do país. Para compreender como é difícil para os árabes trabalharem dentro desse sistema, mesmo dentro de Israel, onde têm alguns direitos limitados, vale a pena examinar os epítetos racistas ("terroristas", "irmãos muçulmanos", etc...) que Netanyahu e os seus apoiantes, que representam o maior partido político de Israel [o Likud], usaram contra o partido árabe moderado que se juntou à coligação de governo, que aliás acabou de entrar em colapso [Israel voltará às urnas em outubro, as quintas eleições legislativas em três anos].

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