Reino Unido

A polémica libertação de um terrorista condenado

A polémica libertação de um terrorista condenado

Filho de "pais decentes" vindos da Caxemira paquistanesa, Usman Khan parece ter sido um mistério toda a sua vida: ninguém esperava que alinhasse numa célula terrorista e construísse o sonho de ter uma escola de terrorismo e de rebentar com a Bolsa de Londres, tal como ninguém percebeu como a desilusão com o extremismo que foi crescendo em oito anos de cadeia não era, afinal, nada disso.

Um ano depois de sair em condicional, com obrigação de apresentação diária à polícia e contactos frequentes com os serviços de condicional, foi convidado para uma conferência sobre reintegração de detidos no Fishmonger's Hall, junto à Ponte de Londres, de onde lançou a fúria assassina que deixou dois mortos e três feridos, na tarde de sexta-feira em que Londres voltou a acordar para um horror ontem reivindicado pelo "Estado Islâmico".

É certo que a altura é sensível: o Reino Unido está em campanha para eleições legislativas antecipadas depois de sucessivos falhanços do Governo conservador de Boris Johnson - formado após a renúncia da antecessora - em aprovar a saída do país da União Europeia no dia 31 de outubro último. E que um atentado é sempre um excelente húmus para o debate e a demagogia eleitoral.

Mas também é certo que o sistema judicial é quem sai muito mal nas fotografias dos instantes de horror que se viveram na Ponte de Londres, em que foi a coragem de um punhado de civis a travar o terrorista - sabe-se já que o homem que lhe arrancou a faca é um polícia dos transportes, à paisana. Havia também um condenado por homicídio em saída precária por um dia, que correu atrás do atacante desde a conferência no Fishermong"s Hall, onde Khan esfaqueou as vítimas mortais. Que um deles agarrou uma presa de narval (baleia dentada) que ornava uma parede e outro um extintor para neutralizar o homem.

Fidelidade à al-Qaeda

Usman Khan, nascido em Stoke-on-Trent há 28 anos, foi detido em 2010 como um dos nove membros da célula terrorista que apoiava o grupo extremista al-Muhijaroun, prestou fidelidade à al-Qaeda e projetou explodir a Bolsa de Valores londrina. Seria condenado em 2012 a tempo indeterminado, até o comité de liberdade condicional entender que já não seria ameaça. Era a chamada "prisão para proteção pública", figura entretanto abolida mas sem efeitos retroativos. Um recurso assente nessa abolição fixou, no ano seguinte, a pena nos 16 anos, com um mínimo de oito e a necessária avaliação do dito comité.

O terrorista saiu de prisão em 2018, ao fim dos tais oito anos, obrigado a apresentações periódicas e pulseira eletrónica. Passou a estar considerado como ameaça de baixo a médio nível. A polémica está na avaliação para a libertação: não existiu, garantia ontem o comité de liberdade condicional, segundo o qual o atacante "parece ter sido libertado automaticamente em condicional (como requerido pela lei), sem nunca ter sido referenciado para o comité".

Ao "The Guardian", o advogado de Khan, Vajahat Sharif, contou que o indivíduo pedira ajuda para ser desradicalizado enquanto estava preso. Percebera, diz, que a violência extremista não é solução e desiludira-se com a ideologia da al-Qaeda e o al-Muhijaroun. Mas não foi ajudado, porque esse tipo de ajuda individual não é para criminosos ideológicos. Parecia reabilitado. Ao ponto de ter sido convidado para a conferência sobre reintegração de detidos, organizada pela Universidade de Cambridge. Sharif admite uma nova radicalização depois da libertação. Talvez não fosse "suficientemente robusto ideologicamente para resistir".

Argumento de campanha

O causídico apela a uma mudança na política de gestão de detidos por terrorismo, a uma efetiva ajuda. "Deveria haver uma avaliação ideológica substancial destes indivíduos antes de se lhes dar a liberdade condicional." Nazir Afzal, ex-procurador-geral, anui. Investir na desradicalização individual é premente, há anos. Roleta russa, resumiu ao "The Guardian" o especialista em contraterrorismo Chris Phillips.

O primeiro-ministro e candidato, Boris Johnson, foi pelo lado securitário: libertar criminosos violentos a meio de uma sentença "não funciona", a lei tem que mudar e as sentenças têm que ser endurecidas. O opositor partido trabalhista alerta para a falta de recursos policiais para monitorizar este tipo de pessoas. E o pai de Jack Merritt, a vítima já identificada, pede que a morte do filho não seja usada como pretexto para endurecer a lei judicial, porque ele "não quereria" isso.

Usman Khan, 28 anos, Stafford

Usman Khan, nascido em Stoke-on-Trent, era discípulo do radical Anjem Choudary, fundador do al-Muhajiroun condenado e libertado em 2018, após cinco anos de prisão, e ao qual estão ligados terroristas envolvidos em vários atentados no Reino Unido.

Jack Merrit, coordenador do programa de reabilitação de presos de Cambridge

Coordenador do programa "Learning Together", que organizou a conferência no Fishmonger"s Hall, Jack Merritt é descrito pelo pai como "um espírito belo, que tomava sempre o partido do oprimido". Uma colega fala no seu "profundo compromisso com a educação e a reabilitação de presos".

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