Covid-19

A vacina é uma questão de saúde ou de poder?

A vacina é uma questão de saúde ou de poder?

Países como EUA e China buscam prestígio e vantagem económica de chegar em primeiro. Personalidades pedem que seja de acesso equitativo e gratuito.

A corrida para encontrar uma vacina para a covid-19 está ao rubro, sobretudo entre dois dos atletas mais poderosos em competição: EUA e China. Só que, nesta prova, as regras não são ditadas apenas pelos governos. Se a doença é democrática, a cura pode ser só para alguns?

Um dos exemplos de que a criação de uma vacina se pode tornar num "salve-se quem for mais rico" é o da postura assumida pela farmacêutica Sanofi, que defendeu que os EUA teriam "direito à maior encomenda", por ser este país o que mais investiu na investigação em que participa a multinacional francesa.

A posição, já considerada inaceitável pelo governo francês, revela a ameaça para a qual muitos especialistas têm alertado - a tentativa de controlo do antídoto por um único país.

No jogo geopolítico, chegar em primeiro significa, além de hegemonia, uma potencial vantagem económica para um país, com a retoma da atividade muito antes do resto do mundo, que continuaria confinado. Optando por uma estratégia egoísta, qualquer governo tentará açambarcar e garantir que a vacina chega a todos dentro da sua fronteira, antes de a fazer chegar aos demais.

Ricos e pobres

"Teme-se que a vacina esteja mais rapidamente disponível para países mais ricos e, além disso, para pessoas e comunidades ricas nesses países. Já vimos isso acontecer com os EPI (equipamentos de proteção individual)", explicou Loyce Pace, diretor-executivo do Conselho Global de Saúde, uma organização sem fins lucrativos, ao "Financial Times".

Recorde-se que a administração de Donald Trump foi acusada de pirataria em março, por tentar comprar uma empresa alemã com resultados científicos promissores para a vacina, de forma a conseguir a exclusividade.

Pequim também procura cortar a meta em primeiro por uma questão de orgulho nacionalista e de poder. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, quatro das oito vacinas que já avançaram para os ensaios clínicos são chinesas.

A Comissão Europeia também se assumiu como líder na busca da vacina, defendendo, no entanto, uma abordagem multilateralista. "A vacina deve ser um bem público global e o seu acesso tem de ser equitativo e universal", disse Stefan de Keersmaecker, porta-voz europeu para a saúde pública, ontem, em Bruxelas.

Além de um bem público, há quem defenda que tem de ser gratuito: 140 líderes mundiais, entre eles o ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, assinaram uma carta a pedir uma vacina gratuita para todos, e exigindo que os tratamentos e testes para a covid-19 sejam isentos de patentes, para que possam ser produzidos em massa e distribuídos de forma justa, independentemente da cidadania ou de quem chega primeiro à fórmula mágica.

Definir prioridades

Alguns especialistas defendem a vacinação global por etapas: profissionais de saúde, países onde há muitos casos de infeção, grupos de risco, etc., independentemente da geografia.

O exemplo da gripe A

Em 2009, quando a gripe A se tornou uma pandemia, os países mais pobres foram os últimos a receber as vacinas, o que resultou num número muito mais elevado de mortes em África e no sudeste asiático.

70% da população

A OMS afirma que o novo coronavírus pode tornar-se endémico (não vai desaparecer tão cedo), o que pode obrigar a inocular 70% da população - cinco mil milhões de doses de vacina.