Venezuela

À vela e a pedais para combater a falta de combustível num país rico em petróleo

À vela e a pedais para combater a falta de combustível num país rico em petróleo

A cidade de Maracaibo, centro da indústria petrolífera da Venezuela, tem uma escassez crónica de combustível, obrigando vários venezuelanos a adaptar-se a uma nova forma de trabalho causada pela falta de combustível.

A Venezuela tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo, porém, a descida elevada da produção, que passou de mais de três milhões de barris por dia, em 2014, para pouco mais de 500 mil barris atualmente, levou a população a ter de se adaptar a um mundo sem necessidade de queimar combustível no dia a dia.

Franklin Romero é um pescador que teve de adaptar-se à falta de combustível para abastecer a embarcação com que trabalha. Atualmente, utiliza um barco à vela, com remos feitos à mão, para conseguir conduzir ao longo do lago Maracaibo para ir pescar. "Usamos velas porque não há combustível", referiu Franklin Romero à agência de notícias AFP. A nova forma como trabalha transformou-se numa longa e árdua viagem, que demora mais de quatro horas até chegar à costa, algo que com um barco a motor apenas levava minutos. "Agora já é normal remar ou velejar", acrescentou o pescador.

Atualmente, a maioria dos barcos que saem para pescar na Venezuela foram adaptados de lanchas com motores de popa para barcos com remos, velas de plástico ou hélices acopladas a um pequeno motor, que apenas precisam de quatro litros de combustível, em comparação com os 20 litros que seriam necessários para um barco com motor de popa mais potente.

Em muitos casos, os pescadores pedem dinheiro emprestado a peixarias para conseguir obter combustível, comprometendo-se a pagar mais tarde com o dinheiro que ganham a vender o peixe, que pode chegar a 25 dólares (21 euros) em dias "muito bons". Porém, em alguns casos não conseguem fazer nenhum dinheiro. "Hoje perdi combustível, perdi trabalho e não pesquei nada", referiu Jonathan, um outro pescador de Maracaibo, à AFP.

Os pescadores também enfrentam algumas dificuldades quando atravessam o lago de Maracaibo, devido aos constantes derrames de petróleo, causados pela má gestão da indústria de petróleo da região. De acordo com a organização não-governamental "Azul Ambientalistas", naquele local existem 25 mil quilómetros de oleodutos que apresentam "despejos constantes".

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Também os motoristas de autocarros e táxis tiveram de adaptar-se, substituindo estes transportes a combustível por riquexós, um veículo de duas rodas que é puxado por uma pessoa a pé ou de bicicleta e transporta uma ou duas pessoas. Manuel faz parte do grupo de trabalhadores que costumava conduzir um autocarro, que transportava até 50 pessoas, e agora utiliza o riquexó para transportar, na maioria das vezes, um passageiro adulto. "Por causa da questão do combustível, o dono [do autocarro] teve de parar e eu fiquei sem trabalho", revelou à AFP.

Hender Urdaneta também teve de arranjar uma solução para a falta de combustível, que levou muitos motoristas de autocarros e táxis ao desemprego. O venezuelano começou a transportar pessoas com o riquexó e, apesar das dificuldades, não tem a intenção de abandonar o país. "Nasci aqui e vou morrer aqui, a lutar com as minhas botas, como um soldado da pátria. Aqui estou para trabalhar com a minha carroça", referiu o motorista à agência de notícias.

O combustível tornou-se um bem raro, num país onde indústria petrolífera sempre foi poderosa. A escassez deste bem levou a que os poucos postos de abastecimento da região de Maracaibo tivessem longas filas de clientes. Atualmente o combustível pode custar dois dólares no mercado negro, a única opção para a maioria das pessoas.

Os especialistas apontam que má gestão e a corrupção do governo de Nicolas Maduro é a causa pela escassez de combustível no país. No entanto, o governo aponta as culpas para as sanções dos Estados Unidos da América, que impediram a Venezuela de comprar combustível.

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