Índia

Aborto seletivo: condenadas por serem mulheres

Aborto seletivo: condenadas por serem mulheres

Estima-se que nasçam menos 6,8 milhões de meninas na Índia, até 2030, devido ao aborto seletivo. Estas foram as conclusões dos estudos levados a cabo por investigadores da Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah, na Arábia Saudita.

"Quando descobri que era uma menina, senti-me sufocada", começou por contar Laali ao jornal britânico "The Guardian". Aos 25 anos, a jovem pensou que iria morrer juntamente com a sua filha que nem chegou a conhecer, tomou uma pílula abortiva sem a supervisão de um médico e as complicações que se seguiram obrigaram à hospitalização. A história de Laali junta-se a tantas outras que já fazem parte das estatísticas e que dão conta do "desaparecimento" de 46 milhões de mulheres na Índia, num período de 50 anos. Números que equivalem a cerca de nove vezes a população feminina de Portugal.

Laali era uma jovem adolescente de 19 anos quando casou. Nos três anos seguintes, engravidou duas vezes e revela que, durante a segunda gravidez, andou a ser seguida por curandeiros que a drogavam, para que a criança nascesse um menino. "As famílias querem um filho a qualquer custo. Se eu morrer, o meu marido vai casar de novo, à espera que a próxima mulher dê à luz um filho."

Os investigadores da Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah previram um decréscimo de dois milhões de nascimentos femininos entre 2017 e 2030. As preferências culturais por um menino são visíveis em 17 estados do norte do país, numa comunidade que vê a figura do homem como chefe de família e a mulher como uma "obrigação indesejável" em todas as classes sociais. Em 1994, o governo indiano proibiu a revelação do sexo da criança em consultas pré-natal, excetuando nos casos estritamente clínicos, no entanto, a aplicação da lei era variável e em grande parte do país o número de rapazes a nascer continuava a ser superior ao número de meninas.

Sem apoio da família, Laali teve de recuperar praticamente sem ajudas, a sogra recusou-se a ver a cara da neta e ainda afirmou: "Estás a dar à luz menina após menina. Até quando posso cuidar de ti?". Desesperada, a jovem pede apenas que o próximo filho nasça menino. A situação constante de assédio moral levou mesmo a que procurasse ajuda psiquiátrica. "Eu quero que isto acabe", reiterou.

Numa sociedade fortemente patriarcal, o sonho pelos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres indianas é ainda bastante longínquo. Perante o marido e a família, a mulher não tem qualquer poder de decisão e, por esse mesmo motivo, Prem Chowdhry, ativista de género e professor aposentado da Universidade de Delhi, explica que os abortos seletivos do sexo feminino são muito comuns, uma vez que o custo de criar uma mulher e o dote são vistos para as famílias como um fardo.

De acordo com a organização sem fins lucrativos "Girls Not Brides", estima-se que na Índia cerca de 27% das meninas casem antes de completarem 18 anos. Ora, os casamentos precoces desempenham um papel preponderante nos abortos seletivos do sexo feminino, uma vez que as meninas não se encontram, na maioria das vezes, bem informadas. Recentemente, o primeiro-ministro da Índia confirmou que estava a considerar aumentar a idade legal dos casamentos para as mulheres na faixa etária dos 18 aos 21 anos.

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Um artigo publicado este ano pela revista científica "The Lancet" revelou um padrão comum nas famílias. O estudo indica que os abortos são mais comuns na terceira gravidez, explicando que as famílias deixam a "natureza" decidir o género da criança nas primeiras duas gravidezes, mas na terceira certificam-se de que o bebé é um menino.

Aproximadamente 1,5 milhões de mulheres acabam por não nascer, todos os anos, devido ao aborto seletivo. Estes são dados mundiais da ONU, que revelam que a Índia e a China são os países que mais condenam o nascimento de mulheres.

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