Fenómeno

Não há grande ciência. Elas são mesmo mais sensatas no combate à pandemia

Não há grande ciência. Elas são mesmo mais sensatas no combate à pandemia

As estratégias para abrandar a pandemia de Covid-19 são diferentes em todo o Mundo, mas os exemplos indicam que os territórios governados por mulheres responderam mais eficazmente, enquanto executivos negacionistas liderados por homens preferem desvalorizar a violência de um vírus que já matou quase 200 mil pessoas.

A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, será provavelmente a que ficará para a História. Implementou com sucesso a sua estratégia: "eliminar" em vez de apenas reduzir a curva de infetados. Não hesitou em criticar o ministro da Saúde por fazer uma viagem à praia ou em cortar 20% do ordenado de todos os membros do Governo ou em fazer uma declaração às crianças para justificar as falhas do coelho da Páscoa e da fada dos dentes.

Com apenas 17 mortos, a Nova Zelândia anunciou um relaxamento das restrições sociais na próxima semana, com escolas a reabrir e o regresso de muitas pessoas ao emprego, mas com trabalho de casa: escrever num diário onde vão e com quem se juntam para poder controlar um eventual aumento do número de casos.

Ao contrário dos demais, a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, não obrigou a população a confinar-se, mas propôs 124 medidas para travar o vírus e o país soube controlar o surto apesar da proximidade com a China.

"comam tostas"

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No norte da Europa, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, apostou em adiantar-se aos vizinhos nas medidas restritivas. Graças a esta rapidez, as aulas já recomeçaram e algumas empresas privadas retomaram a atividade. As creches também já estão abertas na Noruega, onde o Governo de Erna Solberg impulsionou o uso de uma aplicação de telemóvel para rastrear os contactos com infetados.

Já a vizinha Finlândia foi dos poucos países que não precisaram de importar material sanitário: a primeira-ministra mais jovem do Mundo, Sanna Marin, recorreu aos fundos da Agência Nacional de Abastecimento de Emergência, que passou décadas a guardar material para poder ser usado durante uma crise.

Na Islândia, a chefe do Governo, Katrín Jakobsdóttir, seguiu as recomendações da Organização Mundial da Saúde e fez testes em massa - é o país líder nesta matéria, já com estudos que permitem perceber o avanço da pandemia. A mesma estratégia da chanceler alemã, Angela Merkel, cujo país faz 350 mil testes diários e está na frente do desenvolvimento de uma vacina. Com uma das mortalidades mais baixas da Europa, começa a atenuar as medidas de confinamento.

Há mais. Como Silveria Jacobs, a primeira-ministra de Saint-Maarteen, nas Caraíbas, habituadas a furacões. Preparar-se como para um deles foi a mensagem. "Se não têm aquele pão de que gostam, comam tostas".

erva contra coronavírus

No final, se calhar, todas estas mulheres terão feito apenas o mais ajuizado. O estrelato advém, sobretudo, do contraste com algumas prestações masculinas, como as da Nicarágua, da Bielorrússia, do Turquemenistão e do Brasil. Para não falar da dos EUA, de Donald Trump, que, por exemplo, aventou a possibilidade de se usar desinfetante para limpar os pulmões.

Desde o início, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, desvalorizou o risco de uma "gripezinha" num país onde as pessoas se "banham no esgoto", defendeu o tratamento com cloroquina como se a fabricasse, insurgiu-se contra governadores que impuseram confinamento e demitiu o ministro da Saúde, que defendia o isolamento social e preferia a ciência à cloroquina. Entre abraços a apoiantes, toma banhos de multidão prometendo a reabertura do comércio.

Não muito longe, Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, desapareceu por um mês e deixou o país à mulher e vice-presidente, Rosario Murillo, que entendeu por bem não tomar qualquer medida de prevenção e até promoveu celebrações de massas. Entretanto, o marido reapareceu. Diz-se que se protegeu no palácio com mais de 370 litros de gel e 5000 máscaras. Para uma eventualidade, que o vírus "é um sinal de Deus". Nem a bola parou.

Como também não parou na Bielorrússia, de Alexander Lukashenko. Este previu que nenhuma pessoa ia morrer devido ao novo coronavírus, mas falhou: a "última ditadura" da Europa soma 63 mortos. Sem seguir qualquer recomendação, o presidente propôs beber vodca, jogar hóquei e conduzir tratores como soluções contra a Covid-19.

No Turquemenistão, Gurbanguli Berdimikhamedov tem na erva hamala o seu próprio método contra um vírus do qual não se pode falar sem ser detido: fumigue-se as cidades com ela duas vezes por dia e está feito. Ali não há mortos. Oficialmente. É o segundo país mais fechado do Mundo, atrás da Coreia do Norte. Onde também não há mortes, claro.

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