Violência social

África do Sul vai lançar 25 mil soldados nas ruas para conter pilhagens

África do Sul vai lançar 25 mil soldados nas ruas para conter pilhagens

País enfrenta piores dias de violência desde fim do apartheid. Prisão de Jacob Zuma e desigualdades sociais estão na base dos motins. Nas ruas já há cidadãos-vigilantes armados. Numa semana: 72 mortos e três mil presos.

O governo da África do Sul planeia colocar até 25 mil soldados nas duas províncias de KwaZulu-Natal e Gauteng, onde as forças de segurança lutam há uma semana para reprimir saques, incêndios criminosos e violência, anunciou o Ministério da Defesa. O contingente, o maior desde o fim do apartheid em 1994, aumentará em dez vezes o número atual de soldados nas ruas.

72 pessoas morreram e mais de três mil já foram presas desde que o ex-presidente Jacob Zuma se entregou, na semana passada, para cumprir 15 meses prisão por desrespeito ao Tribunal num caso de corrupção durante a sua presidência (2009-2018). O ato gerou protestos que se transformaram rapidamente numa orgia de saques a lojas, shoppings e armazéns, espoletando uma onda de raiva pelas desigualdades, tanto económicas como raciais, que persistem na África do Sul 27 anos após o fim do regime da minoria branca.

Embora desencadeada pela prisão de Zuma, a agitação reflete a crescente frustração com os fracassos do Congresso Nacional Africano, que está no poder, em lidar com as várias formas de desigualdades.

A quente situação social, a pior na África do Sul em décadas, levou já à ruína centenas de empresas, que vão provocar milhares de novos desempregados. Os stocks de comida e combustível começam a escassear.

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Shopping centers e armazéns continuam a ser saqueados ou incendiados em várias cidades, principalmente em KwaZulu-Natal, de onde é natural Jacob Zuma, especialmente na cidade portuária de Durban, no centro financeiro e económico de Joanesburgo, e nos arredores da província de Gauteng.

Estima-se que vivam cerca de 450 mil portugueses e lusodescendentes na África do Sul, mas, segundo o Governo, não há cidadãos nacionais entre as vítimas, registando-se apenas danos materiais, sobretudo em estabelecimentos comerciais propriedade de portugueses.

Cidadãos e vigilantes armados

Enquanto não chega o reforço do contingente do exército, muitos moradores das zonas problemáticas começaram a atuar como vigilantes, reporta a agência Reuters, bloqueando as entradas de lojas e troços de estrada.

Em Vosloorus, sul de Joanesburgo, operadores de táxi, muitos deles armados, dispararam para o ar para afugentar os saqueadores.

"Não podemos simplesmente permitir que pessoas venham do nada e desatem a roubar livremente", disse Paul Magolego, porta-voz da associação local de táxis. Ele sublinha que os taxistas não conseguem trabalhar desde segunda-feira devido aos distúrbios.

Refletindo os perigos de haver agora nas ruas cidadãos-vigilantes armados, um menino de 15 anos morreu devido a uma bala perdida em Vosloorus, revelou um fotógrafo da Reuters que viu o corpo.

No município de Alexandra, norte de Joanesburgo, um dos bairros mais pobres da cidade, outro correspondente da Reuters viu soldados a bater de porta em porta para confiscar bens roubados, sendo auxiliados por civis que se opõem aos saques.

Cidadãos armados com espingardas automáticas, muitos deles da minoria branca, bloquearam as ruas para evitar mais pilhagens em Durban, mostraram imagens da TV Reuters. Outros formaram grupos online para ajudar a limpar e reconstruir bairros devastados.

"Nós não temos nada"

"Isto não é sobre Jacob Zuma, é sobre a nossa pobreza", disse um homem chamado Elijah que admitiu ter roubado vários bens. "Peguei naquilo que poderia levar, bebidas geladas, alguma comida, baldes de tinta. Acho que a verdadeira razão disto é que, na verdade, bós não temos nada, somos demasiado pobres", disse.

Metade da população da África do Sul, país de 60 milhões de habitantes, vive abaixo do limiar da pobreza e o crescente desemprego (32% no primeiro trimestre de 2021) desde o início da pandemia do coronavírus deixou muita gente desesperada, aponta a Reuters.

A agitação também atinge os hospitais que lutam para conter a 3.ª vaga de covid-19. A National Hospital Network, que representa 241 hospitais públicos, diz que as unidades enfrentam ainda a pior epidemia de coronavírus de todos os países africanos.

Os hospitais estão a ficar sem oxigénio e medicamentos, a maioria dos quais importados por Durban, além de alimentos. O autarca de Ethekwini, município que inclui Durban, estimou que 15 mil milhões de rands (cerca de mil milhões de dólares) se perderam já em danos materiais.

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