Moçambique

Ajuda humanitária em Cabo Delgado: abusos sexuais em troca de comida e abrigo

Ajuda humanitária em Cabo Delgado: abusos sexuais em troca de comida e abrigo

A organização Human Rights Watch (HRW) alertou, esta quarta-feira, para as várias alegações de exploração e abuso sexual de mulheres em troca de ajuda humanitária na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique.

A investigadora da HRW Zenaida Machado afirmou que, no mês passado, falou com uma jovem de 23 anos que, à chegada de Pemba, capital da província, recebeu uma proposta de um trabalhador de ajuda humanitária que lhe ofereceria abrigo em troco de sexo. De acordo com a investigadora, a mulher recusou e, com medo de novos episódios de assédio, não se dirigiu às autoridades locais. "Em vez disso, decidiu ficar na casa de um familiar deslocado em Pemba, com outras 38 pessoas", referiu.

A autora do comunicado registou também que a organização não-governamental Centro de Integridade Pública (CIP) relatou, no ano passado, "que os líderes comunitários abusaram sexualmente de dezenas de mulheres deslocadas em Cabo Delgado em troca de ajuda humanitária". Zenaida Machado remeteu também para uma investigação, divulgada esta semana pelo Centro de Jornalismo Investigativo, que "descobriu igualmente que alguns trabalhadores de ajuda humanitária exigiram dinheiro ou sexo antes de distribuírem pacotes alimentares a mulheres em vários campos de deslocados" em Cabo Delgado.

"Infelizmente estas acusações não são novas", lamentou a investigadora, que destacou os abusos contra sobreviventes do ciclone Idai, que atingiu o território moçambicano em 2019 - recorde aqui a reportagem do JN sobre os casos de coação e abuso sexual então reportados.

"A Human Rights Watch desconhece qualquer compromisso público ou ações tomadas pelo Governo moçambicano para investigar ou punir os responsáveis por tais abusos", sublinhou a investigadora, que pediu às autoridades moçambicanas para "investigarem e processarem adequadamente aqueles que utilizam as suas posições de poder para cometer estes crimes".

A província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, é palco de ataques por grupos armados desde 2017, descritos por vários governos e entidades internacionais como "terroristas". A luta contra os insurgentes ganhou um novo impulso, quando em 8 de agosto forças conjuntas de Moçambique e do Ruanda reconquistaram a estratégica vila portuária de Mocímboa da Praia, que estava nas mãos dos rebeldes desde 23 de março.

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Na sequência dos ataques em Cabo Delgado, estima-se que haja mais de 3100 mortes e mais de 817 mil deslocados.

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