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"Alternância democrática" volta 15 anos depois e bipolarização mantém-se

"Alternância democrática" volta 15 anos depois e bipolarização mantém-se

Quinze anos depois, a alternância democrática voltou a verificar-se em Cabo Verde, permanecendo "enraizada" a ideia de quem vence as eleições legislativas, ganha-as com maioria absoluta e sem equívocos, confirmando-se ainda a bipolarização política.

As sétimas eleições legislativas em Cabo Verde, disputadas domingo, deram a vitória ao Movimento para a Democracia (MpD), depois de três mandatos de cinco anos passados no Parlamento como oposição minoritária ao Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV).

Enquanto foi líder do PAICV (entre 2000 e 2015), José Maria Neves alcançou três maiorias absolutas, não permitindo, ao longo da década de 2000 e início da de 2010, quaisquer veleidades aos sucessivos líderes do MpD (entre eles, Jorge Santos, até 2009, e Carlos Veiga, até 2011).

Ulisses Correia e Silva, presidente do MpD desde junho de 2013, capitalizou o facto de ter sido, até dezembro último, presidente da câmara do maior círculo eleitoral do país e de ter mostrado obra feita na capital do país.

Janira Hopffer Almada, eleita líder do PAICV em janeiro de 2015, membro de sucessivos Governos de José Maria Neves desde 2009, já assumiu a derrota e assumiu uma "oposição construtiva".

Em 41 anos de independência - 05 de julho de 1975 -, Cabo Verde viveu 15 em regime de partido único e 26 em democracia.

Até 1990, ano da abertura política - as primeiras eleições pluralistas decorreram a 13 de janeiro de 1991 -, o país foi governado pelo Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), até 1981, ano em que passou a designar-se PAICV na sequência de desavenças relacionadas com o "partido irmão" na Guiné-Bissau, onde houve um golpe de Estado que derrubou o regime de Luís Cabral (14 de novembro de 1980).

Nas primeiras eleições multipartidárias de 1991, o MpD, de Carlos Veiga, venceria com maioria absoluta, repetindo-a cinco anos depois, da mesma forma que o candidato presidencial apoiado pelos "ventoinhas" (como o partido é conhecido localmente) e eleito em 1991, António Mascarenhas Monteiro, seria reeleito em 1996.

Dez anos depois, em 2001, e com José Maria Neves acabado de chegar à liderança do PAICV, os "tambarinas" (como é conhecido no país) regressam ao poder, dando azo a que, pela primeira vez, se falasse no "exemplo político de alternância em Cabo Verde".

José Maria Neves não só venceu as legislativas como apoiou nas presidenciais de 2001 o "histórico" dirigente Pedro Pires (primeiro-ministro entre 1975 e 1991), vitórias que repetiria em 2006.

Quando todos pensavam que o ciclo político do país iria alterar-se nas votações de 2011, atendendo à "alternância democrática", tal apenas aconteceu nas presidenciais (Jorge Carlos Fonseca venceria com o apoio do MpD), o PAICV voltou a vencer as legislativas desse ano, mais uma vez com José Maria Neves e outra vez com maioria absoluta.

A União Cabo-Verdiana da Independência Democrática (UCID) continua a ser o "outsider" do Parlamento de Cabo Verde e, nas legislativas de domingo, aumentou de dois para três o número de deputados, longe dos cinco pretendidos.

Em 41 anos de vida, Cabo Verde continua a ser um dos países politicamente mais estáveis de África, tendo sido sempre respeitadas as legislaturas desde a instauração do multipartidarismo.

Nesse sentido, só contou com quatro presidentes até hoje - Aristides Pereira (1975/91), António Mascarenhas Monteiro (1991/2001), Pedro Pires (2001/11) e Jorge Carlos Fonseca (desde 2011).

O mesmo se passa com os primeiros-ministros - Pedro Pires (1975/91), Carlos Veiga (1991/2000), Gualberto do Rosário (2000/01 - assumiu a chefia do Governo para que Carlos Veiga se apresentasse nas presidenciais de 2001) e José Maria Neves (desde 2001).

Ulisses Correia e Silva será o quinto primeiro-ministro de Cabo Verde, país que, desde 1991, sempre viu o MpD com maioria das 22 câmaras municipais em que se divide administrativamente o pais.