Agroalimentar

A "banana falsa", superalimento da Etiópia

JN

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A planta que a um viajante português do século XVII "lembrava o nabo" é a mesma espécie de todas as esperanças, para um futuro com segurança alimentar e sem fome.

À ensete, produto básico na alimentação da Etiópia, também lhe chamam bananeira-da-Abissínia. Ou "bananeira dos esteróides", por incomprovada fama anabólica. E embora não se lhe pareça em nada, tanto na aparência como no sabor, à planta prima do mais emblemático fruto tropical sobram-lhe muitas outras propriedades, nutricionais e medicinais, que a destacam como um novo superalimento, um salva-vidas para a época de alterações climáticas.

A "banana falsa" não é propriamente novidade. Em 1640, o padre português Jerónimo Lobo viajava pela antiga Abissínia e já descrevia a ensete como "uma árvore peculiar do país" e que, depois de cozinhada, lhe "lembrava o nabo."

Há séculos que esta planta constitui a base da alimentação de 20 milhões de pessoas no sudeste da Etiópia. Num clima de seca extrema, pode viver sete anos sem água, atinge a maturação em cinco anos, cresce até 12 metros e tem potencial para se expandir e alimentar 100 milhões de africanos, de acordo com o mais recente estudo que lhe foi dedicado e publicado na revista "Environmental Research Letters".

A ensete é praticamente desconhecida fora da Etiópia, onde é usada para fazer pão, papas para bebés ou alimento cremoso, misturado com água ou leite. O fruto propriamente dito não é comestível, mas a medula dos troncos fornece uma polpa de vastas propriedades nutricionais. Os caules e as raízes amiláceas são fermentadas durante três a seis meses e também servem para a medicina tradicional das tribos do sul da Etiópia. Diz-se que tem propriedades medicinais poderosas e é muito usada para curativos de doenças ósseas.

Para lá de todas essas virtudes, à bananeira-da-Abissínia reservava-se-lhe um desempenho determinante para a abordagem da segurança alimentar e do desenvolvimento sustentável. Nas mais recentes pesquisas, cientistas da indústria agroalimentar concluem que a planta nativa da Etiópia poderá alimentar mais de 100 milhões de pessoas e aumentar a segurança alimentar noutros países africanos, incluindo Quénia, Uganda e Ruanda.

"Tem características realmente incomuns, que a tornam absolutamente única como cultura. Pode ser plantada a qualquer hora e colhida da mesma forma. E por isso lhe chamam "árvore contra a fome"", afirma à BBC o investigador responsável pelo estudo, James Borrell, do Royal Botanic Gardens,

A Etiópia é também um importante centro de testagem de plantações de diversas espécies em África. É o lar do café e de muitas outras culturas. Ali também se tenta avaliar o efeito das alterações climáticas no rendimento e na distribuição das culturas alimentares básicas, na Etiópia e por todo o Mundo.

E é neste cenário que a ensete cresce, na procura de novas espécies, que alimentem o mundo e aliviem a dependência de culturas básicas. "Quase metade de todas as calorias que ingerimos vêm de três espécies, o arroz, o trigo e o milho. Precisamos de diversificar as plantas que usamos, porque, neste momento, todos os nossos ovos estão numa cesta muito pequena", conclui James Borrell.

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