Amnistia Internacional

Ataque ao teatro de Mariupol foi um "claro crime de guerra"

Maria Oliveira

O teatro após o bombardeamento

Foto Amnistia Internacional

Uma extensa investigação da Amnistia Internacional concluiu que as forças militares russas cometeram um crime de guerra quando atingiram o teatro de Mariupol na Ucrânia, em março, matando pelo menos uma dúzia de pessoas.

Num novo relatório, ""Children: O Ataque ao Teatro Académico Regional de Donetsk, em Mariupol, na Ucrânia", a Amnistia Internacional documenta como os militares russos provavelmente atacaram deliberadamente o teatro, a 16 de março, apesar de saberem que centenas de civis estavam a abrigar-se no local. Isto torna o ataque num "claro crime de guerra", afirma a organização.

O teatro de Mariupol servia como abrigo para civis e letras cirílicas gigantes a formar a palavra "Дети" - termo russo para "crianças" - estavam em pátios de ambos os lados do edifício, o que teria sido visível para os pilotos russos e também nas imagens de satélite. Ainda assim, pouco depois das 10 horas de 16 de março, bombas russas atingiram o teatro, produzindo uma grande explosão que causou o colapso do telhado e de grandes porções de duas paredes principais. Na altura do ataque, centenas de civis estavam dentro e à volta do edifício.

Para apurar o responsável do ataque e as armas usadas, a equipa de Resposta a Crises da Amnistia Internacional entrevistou inúmeros sobreviventes e recolheu provas digitais extensas. Concluiu que o ataque foi, quase certamente, realizado por aviões de combate russos, que lançaram duas bombas de 500 quilogramas que embateram perto uma da outra e detonaram em simultâneo.

Os aviões russos mais prováveis de terem conduzido o ataque são caças como Su-25, Su-30 ou Su-34, que estavam sediados em aeródromos russos próximos, e frequentemente vistos a operar sobre o sul da Ucrânia.

"Após meses de investigação rigorosa, análise de imagens de satélite e entrevistas com dezenas de testemunhas, concluímos que o ataque foi um claro crime de guerra cometido pelas forças russas", disse Agnès Callamard, secretária-geral da Amnistia Internacional. "Muitas pessoas ficaram feridas e morreram neste ataque impiedoso. As suas mortes foram provavelmente causadas pelas forças russas que deliberadamente visavam civis ucranianos", afirma Callamard.

Teoria de que o ataque partiu da Ucrânia não foi comprovada

A Amnistia Internacional analisou várias teorias alternativas sobre quem foi o responsável pelo ataque e quais as armas que podem ter sido usadas. Com base nas provas credíveis disponíveis, a investigação acabou por concluir que um ataque aéreo deliberado russo dirigido a um objeto civil era a explicação mais plausível.

A investigação não encontrou provas credíveis que corroborassem outras explicações possíveis, incluindo um ataque das forças ucranianas com bombas ou mísseis balísticos, ou por qualquer das partes no conflito usando armas mais leves, como artilharia de foguetes.

Além disso, a investigação não encontrou provas convincentes que comprovassem a explicação apresentada pelo Ministério da Defesa da Federação Russa de que o ataque foi uma operação de "falsa bandeira" do Regimento Azov das forças ucranianas, que alegou ter destruído propositadamente o edifício a partir do interior.

Foto tirada do teatro

Foto: AFP

"Não conseguia acreditar no que via". Os testemunhos de quem viveu o ataque

A Amnistia Internacional acredita que pelo menos uma dúzia de pessoas foram mortas pelo ataque e provavelmente muitas mais, e que muitas outras ficaram gravemente feridas. Esta estimativa é inferior à das contagens anteriores, que apontavam 300 vítimas mortais.

Igor Moroz, um arquiteto de 50 anos, estava por perto quando o teatro foi atingido. "Aconteceu tudo à nossa frente. Estávamos a 200 ou 300 metros de distância [quando] a explosão aconteceu... Ouvia um avião e o som de bombas a cair. Então vimos o telhado [do teatro] erguer-se", disse à Amnistia Internacional.

Gregory Golovniov, um empresário de 51 anos, estava a dirigir-se ao teatro quando tudo aconteceu. "Eu estava a andar na rua em direção ao teatro... Podia ouvir o barulho de um avião... mas naquela altura não prestei atenção porque [os aviões] estavam constantemente a voar por ali... Vi o telhado do prédio explodir... Saltou 20 metros e depois desmoronou... Depois vi muito fumo e escombros... Não conseguia acreditar no que via porque o teatro era um santuário. Havia dois grandes sinais a dizer 'crianças'", contou à organização.

A Amnistia também falou com pessoas que sofreram o ataque diretamente. Yehven Hrebenstskii encontrou o corpo do pai, Mykhailo, dentro da sala de concertos do teatro. "Havia muitos feridos... Havia polícias a tentar tirar pessoas dos escombros... No início, vi o braço dele [Mykhailo]. Primeiro, vi uma mão familiar. Tu conheces a mão dos teus entes queridos. Ele tinha o rosto coberto de sangue. O corpo estava coberto de tijolos... Não queria que a minha mãe visse", contou à organização.

Dmytro Symonenko contou que estava com Luba Sviridova momentos antes de ela morrer devido aos ferimentos. "Ela ficou gravemente ferida. Conseguiu rastejar dos escombros... pediu-nos para nos lembrarmos do seu nome, porque ela sentiu que estava a morrer", disse à Amnistia Internacional.

Uma mulher que preferiu não se identificar, refere que a mãe, que viu os seus dentes serem arrancados e ficou com a perna "virada de uma forma não natural", disse que "queria morrer".

Muitos outros entrevistados disseram à organização que viram corpos ensanguentados e partes do corpo desmembradas, incluindo pernas e mãos, nos escombros do edifício devastado após o ataque. Vários sobreviventes e outras testemunhas relataram ter visto cadáveres de pessoas que não conseguiram identificar, e é provável que muitas mortes não tenham sido reportadas.

No total, os entrevistados forneceram à Amnistia Internacional os nomes completos de quatro pessoas que foram mortas: Mykhailo Hrebenstskii, Luba Sviridova, Yelena Kuznetsova e Igor Chystiakov. Também deram a conhecer os nomes de três pessoas que acreditam ter sido mortas.

O teatro destruído

Foto: AFP

Com os civis como alvo, a Amnistia Internacional pede que os autores do ataque sejam responsabilizados

O direito internacional humanitário (DIH) é o órgão de direito que governa principalmente os conflitos armados. Um princípio fundamental do DIH é que as partes num conflito armado devem, a todo o momento, distinguir entre civis e objetos civis, e militares e objetos militares. É ilegal visar civis ou objetos civis e antes de qualquer ataque, os militares são obrigados a tomar medidas para garantir que estão razoavelmente certos de que não estão a visar civis e objetos civis.

Nenhum dos 28 sobreviventes entrevistados pela Amnistia Internacional, nem nenhuma das outras testemunhas em torno do teatro no dia do ataque, forneceu qualquer informação que indicasse que os militares ucranianos estavam a usar o teatro como base para operações, como local para armazenar armas ou para lançar ataques.

O caráter civil do teatro e a presença de numerosos civis foram evidentes nas semanas anteriores ao ataque. A natureza do ataque - a localização do ataque no interior do edifício, bem como a provável arma usada - e a ausência de qualquer objeto militar potencialmente legítimo nas proximidades, sugerem fortemente que o teatro era o alvo pretendido. Como resultado, o bombardeamento provavelmente constitui um ataque deliberado a um objeto civil e é um crime de guerra.

A Amnistia Internacional garante que "são urgentemente necessárias investigações aprofundadas para responsabilizar os autores pelos graves danos e perdas de vidas civis que causaram, bem como pelos danos extensos nas infraestruturas civis".

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