Antártida

O icebergue mais famoso do Mundo desapareceu e deixou rasto de vida

Augusto Correia

Imagem da NASA mostra o A68 em novembro de 2020, já muito mais pequeno que no início

Foto Epa/nasa

O A68 chegou a ser o maior icebergue do Mundo, quando se desprendeu da Antártida, em 2017. Três anos e meio depois, em abril de 2021, desapareceu, mas deixou rasto visível na fauna e na flora marinhas, revelam agora os cientistas.

O A68 tinha uma área maior que toda a região do Algarve quando se desprendeu da plataforma de Larsen C, na Antártica, em 2017. Com seis mil quilómetros quadrados, mil acima dos 4997 km2 do Algarve, o icebergue, que chegou a ser o maior do Mundo, depositou cerca de 1500 milhões de litros de água doce no mar por dia, o equivalente a 150 vezes toda a água consumida diariamente pelos 67 milhões de britânicos. Contas da BBC.

Tanta água doce num mar salgado teve efeitos, dizem agora os cientistas. "Pensamos que existem sinais evidentes de alterações na flora de espécies de fitoplâncton nas zonas onde passou o A68 e ainda a deposição de matéria nas partes mais fundas do oceano", disse o biólogo oceanográfico Geraint Tarling, em declarações ao canal britânico BBC.

Tarling comentava os dados recolhidos por dois robôs que foram lançados ao mar junto do A68, para acompanhar a viagem da gigantesca massa de gelo. Os cientistas encontram evidências de que o degelo de um grande icebergue altera as correntes marinhas nos locais por onde passa e tem efeitos na flora e na fauna. O ferro, os minerais e o material orgânico acumulado no gelo durante milhares ou milhões de anos são depositados nos oceanos e alimentam a produção biológica.

Os dados recolhidos pelos robôs enviados pela Vigilância Britânica da Antártida (BAS, na sigla original) ainda não estão totalmente analisados. Mas Geraint Tarling diz que os aparelhos de medição de partículas "detetaram sinais fortes de depósitos de materiais provenientes do icebergue" enquanto derretia.

O A68 em janeiro de 2020

Foto: NASA

O A68 foi o icebergue mais famoso da história, seguido por satélite por milhares de pessoas em todo o Mundo, desde que se soltou da plataforma de gelo Larson C, na extremidade da Península Antártica. Após quase um ano praticamente parado, flutuou rumo ao Oceano Atlântico, levado por fortes correntes e ventos marítimos.

O bloco de gelo de biliões de toneladas seguiu uma rota conhecida, em direção ao Território Britânico Ultramarino da Geórgia do Sul, pequena ilha conhecida como "cemitério de icebergs", local onde derretem, presos nas águas rasas, muitos dos maiores blocos de gelo que deixam a Antártida.

O A68 escapou a esse fim, apesar de ainda ter estado encalhado alguns dias. "Parece que tocou a plataforma continental por momentos. Foi quando fez uma curva e um pedaço se partiu. Mas não foi suficiente para o encalhar", disse Anne Braakmann-Folgmann, professora da Universidade de Leeds, em Inglaterra, que acompanhou, via satélite, o percurso do icebergue estrela das redes sociais.

"Segundo as estimativas que temos, o A68 teria cerca de 141 metros de espessura, em média. A profundidade das águas do mar naquela área rondava os 150 metros", acrescentou Anne Braakmann-Folgmann, em declarações à BBC. Acabariam por ser as ondas, a água quente e as temperaturas mais altas no Atlântico a derreter o bloco de gelo, que se desfez em pedaços.

"É incrível que o A68 tenha durado tanto", disse Adrian Luckman, da Universidade de Swansea, em abril de 2021, ao comentar o fim do icebergue. Segundo os critérios do Centro Nacional do Gelo dos EUA (USNIC, na sigla original), para ser considerado uma ameaça tem de ter mais de 18,5 quilómetros de área ou pelo menos 68,5 quilómetros quadrados.

O A68 tinha quase 100 vezes mais este tamanho, mas em abril de 2021, após três anos e meio a derreter, nenhum dos fragmentos que foi deixando no mar tinha o tamanho mínimo para ser considerado um perigo, aos olhos dos técnicos do USNIC, o instituto norte-americano conhecido por dar nome aos blocos gigantes de gelo e acompanhar aqueles que podem ameaçar o transporte marinho.