Eleições

Itália elege Giorgia Meloni e relança o espectro fascista na Europa

Almiro Ferreira

Giorgia Meloni toma o poder em Itália

Foto Epa/massimo Percossi

Projeções à boca das urnas indicam a vitória da candidata ultraconservadora. "Fratelli d'Italia" chega ao poder na coligação de direita formada com Salvini e Berlusconi.

Oito décadas após a queda do regime de Mussolini, a Itália voltou a ceder à sedução fascista. "Il Duce" reencarna numa admiradora incondicional, a primeira mulher a chegar ao cargo de primeiro-ministro da "Bota". Tal como as projeções indicavam, Giorgia Meloni, de 45 anos, líder dos Fratelli d"Italia. Os Irmãos de Itália saíram vencedores das eleições gerais deste domingo, com 22% a 26% e maioria garantida no Parlamento, na coligação de direita formada com o patrono Silvio Berlusconi (Forza Italia) e Matteo Salvini (Liga Norte).

Eram 23 horas em Roma, menos uma em Portugal continental, quando encerraram as salas de votação e as sondagens à boca das urnas logo revelaram o que todas as projeções indicavam desde a última que foi publicada, há duas semanas: Giorgia será a 46.ª líder de Governo no pós-guerra, o 69.º executivo desde 1946, na pátria da instabilidade política (os 68 governos anteriores tiveram uma longevidade média de 503 dias).

Estrela ascendente e fulgurante

Nada que possa assustar esta intrépida política, até porque, tudo o indica, terá maioria incontestada, pelo menos se nenhum dos parceiros da coligação de direita proceder a um golpe de teatro. Ainda que os resultados finais e a composição das bancadas do Senado e da Câmara dos Deputados não sejam conhecidos antes das duas da manhã desta segunda-feira, segundo as melhores perspetivas - as primeiras projeções já marcaram a tendência: com os votos da Forza Italia (6% a 8%) e do Liga Norte (8,5% a 12,5%), esta frente de extrema-direita andará à maioria absoluta; no bloco à Esquerda, o Partido Democrático foi o segundo mais votado (17% a 21% %), mas sem nenhuma geringonça que lhe valha, porque os possíveis aliados, ao Centro e à Esquerda, não garantem um projeto de maioria (o Movimento 5 Estrelas ficará entre 13,5% e 17,5%).

Se as sondagens não falharem, confirma-se, assim, a eleição de uma das estrelas ascendentes da extrema-direita na Europa. A própria já disse ao que ia: entre outras batalhas, quer renegociar os tratados europeus e pede a Bruxelas e aos parceiros continentais que remodelem a União numa "confederação de estados soberanos".

Declaradamente contra a interrupção voluntária da gravidez e contra o que qualifica como "lobbies LGBT", opõe-se impetuosamente ao casamento gay e à adoção homoparental. Apresenta um programa ultraconservador, nacionalista e anti-imigração. Propõe o fecho das fronteiras aos migrantes. "Sim à universalidade da cruz, sim às fronteiras seguras, não à violência islamista", repete em quase todos os comícios.

A romana que aos 31 anos se tornou na mais jovem ministra da história italiana (Berlusconi deu-lhe a pasta da Juventude) torna-se, ainda, na mais fulgurante ascensão da história mais recente da República italiana: em 2014, assumiu a liderança dos Irmãos de Itália, com 1,3% do eleitorado; oito anos depois chega a primeira-ministra.

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