Holodomor

Kiev acusa Moscovo de usar táticas "genocidas" da era de Estaline

Ana Isabel Moura

Em Kiev, ucranianos homenageiam vítimas do Holomodor

Foto Epa/oleg Petrasyuk

Volodymyr Zelensky comparou flagelo cometido por regime estalinista há 90 anos com a guerra que a Rússia trava atualmente em território ucraniano.

Precisamente noventa anos após a tragédia humanitária impulsionada pelo regime de Josef Estaline na União Soviética (URSS), também conhecida como "A Grande Fome" ou "Holodomor" - extermínio pela fome -, causando, entre 1932 e 1933, cerca de sete milhões mortos, Volodymyr Zelensky, líder de Kiev, estabeleceu um termo de comparação entre os mais obscuros tempos da História e o conflito que Moscovo leva a cabo na Ucrânia. "Antes queriam-nos destruir com fome, agora com escuridão e frio", escreveu este sábado o presidente no Telegram, acusando a Rússia de usar as táticas "genocidas" herdadas do antigo ditador.

Em referência à estratégia militar que o Kremlin tem usado no teatro de operações, que passa, essencialmente, por deixar o país às escuras, Zelensky aproveitou para recordar as vítimas ucranianas do Holodomor (pelo menos 3,9 milhões): "Os ucranianos viveram coisas terríveis. Apesar disso, preservam a capacidade de não obedecer", frisou.

Nove décadas depois do flagelo que ensombrou a URSS e sacrificou com maior peso o povo ucraniano, já que Estaline fez um vasto usufruto dos solos férteis do país para acumular cereais, o pesadelo do passado repete-se e traduz-se numa nova crise alimentar com Moscovo a ser acusada, quase um século depois, de usar a fome como arma.

Numa altura em que mais de seis milhões de casas continuam sem acesso a energia devido aos constantes ataques, informou o presidente ucraniano, Moscovo insiste em negar que as mortes tenham sido causadas por uma política genocida deliberada, recordando que os russos e outros grupos étnicos também sofreram por causa da fome.

Aos olhos de vários países, e em resposta a uma reivindicação ucraniana antiga, os 90 anos do Holodomor foram o pretexto certo para classificarem o ato como genocídio. A Roménia, a Irlanda, a Alemanha e o Vaticano foram alguns dos estados que se juntaram a Portugal, que já tinha adotado a designação em 2017.

No seguimento do aniversário, Mateusz Morawiecki, primeiro-ministro da Polónia, juntou-se este sábado às autoridades ucranianas nas cerimónias que assinalam a catástrofe do "Holodomor" e culpou Moscovo de provocar uma "fome artificial", referindo-se ao recente bloqueio dos portos.

O governante polaco, que participou nas cerimónias acompanhado pela chefe do Executivo lituano, Ingrida Simontye, salientou que o conflito apenas terá fim no dia em que "a Ucrânia recuperar todas as casas, todas as escolas, todos os hospitais, todas as pontes e estradas".

Os líderes emitiram uma declaração conjunta após o encontro com o objetivo de enfatizar o apoio contínuo à Ucrânia. Também o primeiro-ministro da Bélgica, Alexander De Croo, esteve em Kiev, comprometendo-se a fornecer um apoio financeiro de 37,4 milhões de euros para o país.

Presentes através de videoconferência, o chanceler alemão, Olaf Scholz, e o presidente francês, Emmanuel Macron, também anunciaram a libertação de fundos para apoiar as exportações de cereais provenientes da Ucrânia. "A Rússia continua a explorar a fome como meio de pressão", sublinhou o líder gaulês, numa iniciativa que pretende garantir que a História não se repete.

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