Guerra

Rússia diz que notícias de ataque a Kiev são "fake news"

Almiro Ferreira

O prédio de apartamentos bombardeado em Kiev. Moscovo diz que era uma fábrica de mísseis.

Foto Roman Pilipey / Epa

Bombardeamento de bairro residencial causa um morto e quatro feridos. Moscovo diz que era alvo militar, uma suposta fábrica de mísseis

Após quatro semanas de acalmia, Kiev acordou para um domingo em sobressalto. Durante a madrugada, bombardeamentos russos a uma zona residencial causaram um morto e quatro feridos e voltaram a instalar a psicose coletiva na capital ucraniana. Moscovo diz que são "fake news" e que o alvo era militar, uma suposta fábrica de mísseis. O ataque foi sobretudo interpretado com mais um aviso do Kremlin, enviado no próprio dia da abertura do G7 e nas vésperas da cimeira da NATO, marcada para Madrid, entre amanhã e quinta-feira.

Quatro explosões foram registadas no coração de Kiev às 6.30 horas locais (menos duas em Portugal continental). Seguiu-se um grande incêndio, testemunhado e relatado por jornalistas da AFP. O primeiro saldo do ataque apontou para dois feridos, mas o presidente da Câmara logo observou que "havia pessoas sob os escombros", o que podia agravar o número de vítimas. Ao início da tarde, Vitaly Klitschko atualizou a informação e deu o balanço definitivo.

Entretanto, na Baviera, onde participa na cimeira do G7, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, descreveu os novos bombardeamentos em Kiev como uma "barbárie". "É mais uma barbárie dele", respondeu Biden dirigindo-se a jornalistas e referindo-se a Vladimir Putin.

O presidente da Ucrânia foi convidado a participar na cimeira dos sete mais ricos e tinha previsto intervir por video-conferência. Kiev já tinha pedido mais armamento pesado e sistemas de defesa antiaérea para neutralizar o avanço da invasão russa e para reconquistar territórios ocupados.

Ameaça nuclear

No sábado, a Rússia tinha já lançado um ataque massivo a Chernihiv, região localizada 70 quilómetros a norte de Kiev e a meio caminho da fronteira com a Bielorrússia. O Comando Norte das tropas ucranianas descreveu esta ofensiva "com mais de 50 mísseis de vários tipos, lançados do ar, mar e terra" e garantiu que também foi desencadeada desde território bielorrusso, aliado de Moscovo.

As forças armadas ucranianas destacaram que estes mísseis (X-22, Onyx e Iskander) eram "extremamente difíceis" de intercetar e o próprio Putin adiantou que tenciona entregar à Bielorrússia mísseis capazes de transportar ogivas com cargas nucleares, designadamente o Iskander-M, como confirmou o líder russo durante uma reunião com o homólogo bielorrusso, Alexander Lukashenko.

Ainda este domingo, a Rússia confirmou o ataque a três centros de treino militar no noroeste da Ucrânia, um deles a 30 quilómetros da fronteira com a Polónia. Moscovo também assinalou um ato de guerra carregado de todo o simbolismo e igual dose de propaganda: sem assinalar quaisquer datas ou local da passagem em revista às tropas, os serviços de informação dizem que o ministro da Defesa, Sergei Shoigu, fez a primeira visita de inspeção ao contingente militar russo estacionado na Ucrânia, que recebeu relatórios dos comandos e que concedeu medalhas a militares distinguidos no desempenho da "operação especial" em curso.

Londres e Paris aumentam apoio

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, advertiu o presidente francês, Emmanuel Macron, contra a tentação de negociar uma solução na Ucrânia com risco de prolongar a "instabilidade mundial". Ainda segundo Downing Street, os dois líderes concordam "que é possível inverter o curso da guerra" e que tencionam "aumentar o apoio militar" a Kiev.

Diplomacia pelo trigo

O secretário-geral das Nações Unidas anuncia "intensos contactos" para desbloquear produtos alimentares da Ucrânia. "Estamos a fazer um grande esforço no sentido de tentar resolver ou ajudar a resolver o problema da segurança alimentar, que é absolutamente dramático", afirmou António Guterres.

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