Crise

Seca extrema está a matar os animais do Corno de África e a deixar milhões à fome

Pelo menos 26 milhões de pessoas estão a lutar por alimentos na zona do Corno de África.

Foto Arquivo / Afp

Desde março que a chuva é escassa em território africano e por isso a seca extrema e as altas temperaturas estão a matar a vida selvagem e os animais no norte do Quénia, em grande parte da Somália e no sul da Etiópia, os três países que formam o corno de África, a região mais afetada. Pelo menos 26 milhões de africanos estão a lutar por comida.

Os animais percorrem quilómetros à procura do pasto que já existiu, mas que neste momento está seco. Procuram comida e água e morrem a tentar sobreviver. Segundo a "BBC" no norte do Quénia 70% do gado desapareceu nos últimos meses devido à seca extrema que assola a África Oriental.

"A perda é devastadora. Eu não posso fazer mais nada para os salvar. (...) Eu só rezo para a chuva vir, porque gado é tudo para mim", admitiu Ahmed Ibrahim, pastor, à correspondente da "BBC" em África, Anne Soy. No Quénia cerca de 70% da população depende do gado para sobreviver.

"Nós dependíamos dos nossos animais, mas eles morreram por causa da seca e por isso nós estamos me risco de morrer de fome", confessou Saadiye Mahadgare, também pastora.

Mas o pesadelo parece longe de terminar. Prevê-se que as condições de seca no norte do Quénia, na Somália e no sul da Etiópia persistam até pelo menos 2022, colocando milhões de vidas em risco.

Em setembro, a Autoridade Nacional de Gestão da Seca (NDMA, sigla em inglês) do Quénia revelou que os habitantes do norte, nordeste e zonas costeiras do país precisavam "urgentemente" de ajuda alimentar durante os próximos seis meses, depois das chuvas fracas de março e maio deste ano. Segundo as previsões, a crise vai piorar até ao final do ano, uma vez que se espera que as chuvas de outubro e dezembro fiquem abaixo dos níveis normais.

No condado de Garissa no nordeste do Quénia, Omar Abdul, um residente local, mantém as vacas e cabras como a principal fonte de subsistência. Ao redor da sua propriedade, as árvores que costumavam ser verdes estão agora amarelas, a vegetação está murcha e seca. À agência noticiosa Anadolu, Abdul lamentou que a seca esteja a ser tão severa e implacável.

"Tantas pessoas perderam os seus animais. Milhares de animais morreram. Não há água para mim, nem para a minha família. Onde é que vou buscar água para o meu gado? De quase 60 cabras, tenho apenas 30", confessou.

Os animais estão a morrer sem comida e sem água

Foto: Arquivo / AFP

O relato chocante de Abdul continua com uma descrição pormenorizada da miséria que assombra aquele território. "As pessoas vêm de longe para tentar obter água para os seus animais já cansados, mas não encontram água, nem pasto. Por isso, os animais não conseguem regressar vivos e há carcaças podres por todo o lado. O solo está demasiado seco e queimado do sol para sequer os enterrar. Os animais selvagens também não escapam e há cadáveres por todo o lado", revelou, ainda, Abdul.

Abishar Abdi, outro residente de Garissa, disse à agência noticiosa turca que os animais selvagens estão a procurar água e comida em áreas povoadas.

"Os animais vêm para onde nós vivemos à procura de água e de qualquer alimento que possam obter. Isto é um conflito enorme entre animais e seres humanos". Para eles, uma cabra é um alimento, o mesmo acontece com uma vaca e por isso é que há muitos casos de animais que atacam os humanos", disse Abdi.

O número de animais que invadem as vilas à procura de alimento é cada vez maior e por isso o conflito entre humanos e outras espécies cresce a olhos vistos. Prova disso foi a morte de um pastor pela fúria de um leão em Laikipia, no Quénia. O ataque aconteceu dias depois de os leões terem atacado e matado vacas na mesma região.

De acordo com a agência Anadolu, os casos de leões que assassinaram gado têm aumentado, um fenómeno que até então não era comum.

Devido ao conflito armado na Etiópia e na Somália é difícil analisar e quantificar o impacto da seca extrema nestes dois países. Mas de acordo com a "BBC", pelo menos 26 milhões de pessoas estão a lutar por alimentos na zona do Corno de África.