Ativismo

Sexo, raiva e esperança: Stella Nyanzi, "a mulher mais insolente do Uganda"

M. A. com AFP

Ativista Stella Nyanzi|

 foto Sumy Sadurni / AFP

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 foto Sumy Sadurni / AFP

Usa o corpo para expressar a raiva contra um governo que - acusa - lhe roubou os pais. Foi presa e espancada na prisão - onde perdeu um filho - e teve de fugir para o Quénia. Mas voltou ao Uganda porque enche o peito de esperança ao pensar nas próximas gerações.

Escritora, antropóloga, doutorada em sexualidade, defensora dos direitos humanos e feminista, Stella Nyanzi não é consensual. E talvez seja esse o objetivo da ativista, de 47 anos: agitar as águas no Uganda.

Despertou a ira de conservadores religiosos, do governo autoritário de Museveni e dos próprios feministas, que a consideram obcecada com sexo. Mas não há quem a cale. Nem com ameaças de morte pela crítica mordaz a um presidente - no poder há 35 anos - que culpa pela morte dos pais e de milhares de pessoas, sem acesso a cuidados de saúde. Responde às críticas com indiferença: "não procuro amor e abraços".

"Aprendi muito cedo que há vários problemas no Uganda e que a única maneira de chamar a atenção é fazer algo que choca", afirmou à AFP, em Kampala. E foi exatamente isso que fez. Além de vários protestos que acabaram rotulados como pornografia, insultou Museveni, em 2019, e acabou por passar vários meses na cadeia, onde sofreu um aborto espontâneo depois de ser espancada. Numa das audiências do julgamento, levantou a blusa e mostrou os seios, em forma de protesto, deixando claro não mostrar qualquer tipo de arrependimento.

"Não vemos ou fingimos não ver o que está a acontecer na sociedade, especialmente os excessos de décadas de governo autoritário", defende a ativista, que perdeu os pais, há seis anos, por falta de medicamentos e de serviços de socorro. Desde então, encontrou no humor a grande arma para tentar derrubar o sistema. E no tema do sexo o aliado perfeito para "divertir e tirar as pessoas da apatia".

"Deixem-me ser livre para pensar e protestar como eu quero", acrescenta Nyanzi, explicando que apenas pretende mostrar às mulheres que a sexualidade não tem de ser um assunto tabu.

Dadas as suas polémicas e constantes declarações, a escritora, que soma quase 300 mil seguidores no Facebook, já é conhecida como "a mulher mais insolente do Uganda". "Utilizo as redes sociais de forma muito consciente e para dizer a verdade, que não é contada pelos meios de comunicação tradicionais", refere. Uma missão que já lhe trouxe vários dissabores. Há alguns meses, viu-se obrigada a fugir para o Quénia, depois de o seu companheiro ter sido sequestrado. Embora já tenha regressado a Kampala, a verdade é que a ativista ainda pensa numa vida de exílio para proteger os três filhos.

No entanto, move-a a esperança de que "o país possa mudar e ser melhor para a próxima geração".