Direitos humanos

Voltar a ser virgem para sobreviver no Afeganistão

No Afeganistão, as mulheres solteiras não podem ter relações sexuais

Foto Epa/stringer

Fugir e desonrar a família ou morrer a tentar amar. Chegar ao casamento não virgem é uma sentença de morte para as mulheres afegãs, obrigadas a recorrer a cirurgias de reconstrução do hímen. Os testes de virgindade são pedidos com frequência pelas autoridades e por familiares.

Têm apenas 22 anos e, às costas, o peso de um crime já cometido - relações sexuais entre solteiros - e de um segundo que sonham cometer: fugir do país. Embora este último não esteja tipificado na lei afegã, merece igual reprovação, numa sociedade que reprime, persegue e castiga os jovens que ousam sonhar.

Com o regresso da força talibã ao poder, ao fim de 20 anos, a história de amor de Leila e Ehsan complica-se. O casal aceitou falar com o "El País" - que por motivos de segurança lhe atribuiu nomes fictícios - mas não esconde o medo: as suas vidas estão em perigo. Imaginar uma vida a dois em Cabul, com independência e um futuro livre é, para eles, quase uma utopia.

Numa altura em que, com a criação do Emirado Estado islâmico, o Ministério da Mulher acaba de desaparecer (substituído por uma espécie de "polícia moral" que promove a virtude), Leila decidiu submeter-se a uma cirurgia ginecológica para reconstruir o hímen. Voltar a ser virgem por não acreditar que os ventos possam mudar a seu favor.

Tem casamento marcado, daqui a seis meses, com o noivo que a família lhe escolheu e, se assim não fosse, estaria a desonrar ambas as famílias, explica, de forma crua, a estudante de Tecnologia da Saúde, fazendo o gesto de cortar o pescoço.

As provas de virgindade continuam frequentes no Afeganistão, não só a pedido das autoridades mas das próprias famílias, confirmou Heather Barr, responsável da área das mulheres da "Human Rights Watch". Daí a nobreza do trabalho de Shakila, a médica, de 30 anos, que operou Leila e tantas outras jovens. "Quero ajudar as meninas a terem uma vida livre e feliz", sublinhou. "É por isso que é tão importante para mim restaurar-lhes o hímen. Temos uma religião que proíbe as raparigas de fazerem sexo sem serem casadas. E quem não casa tem de ficar com o hímen intacto", explicou, assumindo que vive apavorada que alguém (incluindo o próprio marido) descubra esta vertente do seu trabalho.

Nos últimos sete anos, Shakila, que trabalha num hospital privado, já fez mais de 70 cirurgias ginecológicas do género. Utiliza os seus próprios instrumentos - num procedimento que considera simples e sem riscos - e aceita a vida dupla porque sabe que está a salvar vidas. "Eles podem matá-las". Cada intervenção ronda os 430 euros mas, na maior parte das vezes, não consegue cobrá-los porque as pacientes não têm dinheiro. Além de ser contactada pelas adolescentes, muitos pais recorrem aos seus serviços, sobretudo em caso de violação.

Segundo dados da "Human Rights Watch", em 2012 havia cerca de 400 adolescentes e mulheres presas, no Afeganistão, por crimes relacionados com a moral. Punição que as autoridades pretendem que sirva de exemplo a todas as raparigas que tentam evitar casamentos forçados, violações e outro tipo de abusos.

É por isso que Leila não expressa grande reação quando Ehsan garante ao "El País" que vai lutar para salvar este amor. "Temos de encontrar uma maneira de ficar juntos", atira o estudante de Economia. E o tempo está a esgotar-se.