Covid-19

Ana, uma portuguesa no meio da balbúrdia do serviço de saúde inglês

Ana, uma portuguesa no meio da balbúrdia do serviço de saúde inglês

Ana, técnica de radiologia portuguesa na cidade inglesa de Leicester, na primeira linha dos cuidados a pacientes com sintomas do novo coronavírus, fala da desproteção sentida pelos profissionais de saúde.

No condado de Leicestershire, que tem em Leicester a capital administrativa, há sete casos confirmados de infeção com Covid-19, uma pequena parcela dos mais de 2600 em todo o Reino Unido (dados oficiais de quarta-feira). Mas, apontam especialistas à imprensa de referência do país, a contagem das autoridades de saúde britânicas, que dão também conta de 104 vítimas mortais, não corresponderão aos casos reais, por deixar de fora pessoas sintomáticas não testadas, em resultado da estratégia de "imunidade de grupo" iniciada pelo Governo de Boris Johnson, que implica deixar a população ganhar resistência natural ao vírus. Embora invocando uma "abordagem conduzida pela ciência", o primeiro-ministro britânico tem sido criticado por centenas de cientistas e instado a cumprir o que diz a Organização Mundial de Saúde. "Testem, testem, testem. Testem cada caso suspeito. Se derem positivo, isolem-nos e descubram com que pessoas estiveram em contacto próximo nos dois dias antes de desenvolverem sintomas e testem-nas também", repetiu há dias o diretor-geral da OMS.

Dos hospitais universitários de Leicester, chega o testemunho de Ana, uma das 200 profissionais de saúde que trocaram Portugal pela cidade inglesa, abrigo para cerca de 330 mil habitantes, e uma das 20 técnicas de radiologia que trabalham na linha da frente do combate à doença: faz raios-x e TAC a possíveis infetados com Covid-19. Ainda assim, não tem proteção individual adequada: "Luvas há, batas poucas, máscaras só ontem [segunda-feira] é que foram disponibilizadas para o meu departamento. Temos 10 para 20 pessoas e só as podemos usar caso estejamos perante um caso suspeito. Se for confirmado, temos que ver se nos arranjam a máscara própria que tem o ventilador."

Além disso, só na quarta-feira é que Johnson se comprometeu a priorizar os testes de despiste aos profissionais de saúde, face ao número crescente de pacientes infetados e às pressões dos trabalhadores do serviço nacional de saúde britânico (NHS). "Estamos super expostos. Vemos cerca de 60 pacientes por dia", diz a portuguesa de cerca de 30 anos, que nem sabe quantos doentes infetados estão internados no hospital, onde as medidas de contenção estão a ser implementadas a conta-gotas e depois do tempo: "Há especulações mas ninguém diz porque não nos querem alarmar".

Casos "alarmantes" e falta de consciência

"Uma colega minha fez um exame a uma paciente internada nos cuidados intensivos - ninguém suspeitava que era Covid-19 - e tudo o que usou foi um avental descartável e luvas. Três dias depois, fizeram o teste e a paciente estava positiva. Não esteve isolada, esteve em contacto com outros doentes e profissionais. Ninguém foi testado. A não ser que tenhas sintomas, a indicação é continuar a trabalhar." E nem ter sintomas é garantia, conta Ana, falando de outra colega que começou a queixar-se de tosse, congestão nasal e febre momentânea dias depois de ter regressado de Itália: "Ligou para o NHS 111 (equivalente ao SNS24) e disseram-lhe para continuar a trabalhar, sem ser testada, porque não tinha febre constante. Isto foram dois casos alarmantes que aconteceram aqui." E esses são só os que conhece.

"As regras mudam todos os dias. Todos os dias chego ao hospital e as regras são diferentes", diz a portuguesa, para quem o NHS está a encarar a situação de forma "muito leve", "com muita tranquilidade, como se não se passasse nada". "E as pessoas também. Tu sais aqui à rua - temos de sair para fazer compras básicas - e está tudo na rua. Os 'shoppings' estão cheios e só desde sábado é que começaram a fechar lojas. Ninguém está recolhido. O pessoal ainda vai aos 'pubs' beber cerveja."

A consciência do problema, diz, não se equipara à do resto da Europa. "Está a haver instruções claras mas não tanto como em Portugal. Vê-se muito pouco [conteúdo] em redes sociais, por exemplo, que em caso de isolamento são um bem poderoso para divulgação de informação. No trabalho, à hora de almoço, quando vejo televisão, não passa nada, nada sobre a importância de lavar as mãos." A maior parte das pessoas, continua, nem percebe porque é que é preciso lavar as mãos. "Ninguém sabe que o vírus tem uma camada de lípidos, que é gordura, e que o sabão é um destruidor de gordura. É muito bom no ataque ao vírus", explica.

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