Médio Oriente

Anexação suspensa mas ainda não tirada da mesa israelita

Anexação suspensa mas ainda não tirada da mesa israelita

Acordo entre Israel e os Emirados Árabes Unidos fixa relações diplomáticas em troca de não declarar soberania sobre territórios palestinianos ocupados.

Uma pequena palavra integrada nas declarações de júbilo pode explicar a rejeição que mereceu, pelos visados, do acordo "histórico" de estabelecimento de relações diplomáticas entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, que oferecem a diplomacia em troca da "suspensão de qualquer anexação" de territórios palestinianos por Israel. "Suspensão" é a palavra. Porque, confirmaria depois o líder israelita, o assunto não saiu de cima da mesa...

O acordo foi anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, que disse ser parte do Plano de Paz que a sua administração desenhou para o Médio Oriente. O mesmo plano que servira de base para o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, anunciar a integração no território nacional de todos os colonatos israelitas na Cisjordânia (que a comunidade internacional classifica de ilegais) e em Jerusalém Leste, transformando os territórios palestinianos numa malha de soberania descontínua. Prometida na campanha eleitoral e prevista para 1 de julho, a anexação acabaria suspensa. Está agora "suspensa". Israel não declarará "soberania" sobre os territórios ocupados, a pedido de Trump. "Temporariamente", esclareceu Netanyahu, numa posterior alocução televisiva. A anexação é um "compromisso" a que se mantém fiel e que "continua em cima da mesa".

3.º país árabe com relações

Os Emirados tornam-se o terceiro estado árabe a relacionar-se com Israel, depois do Egito e da Jordânia, e, diz a declaração conjunta, liderarão o caminho "para desbloquear o grande potencial da região".

"Agora que o gelo foi quebrado, espero que mais países árabes e muçulmanos sigam os Emirados Árabes Unidos", reagiu Trump, felicitando-se pela sua própria intermediação entre Netanyahu e o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Mohammed bin Zayed al Nahyan.

Aproximar o estado judaico dos países árabes sunitas moderados acaba por fazer mais o jogo dos EUA do que a anexação de mais territórios palestinianos: isola um inimigo comum, o Irão, cuja influência se estendeu à Síria com que Israel faz fronteira e ao Iémen que confronta com o Golfo.

"Yom histori", escreveu Netanyahu no Twitter. "Dia histórico". Porque o acordo traduz a primeira normalização diplomática com um estado do Golfo, cujos cidadãos podem, a partir de agora, visitar um dos locais mais sagrados do Islão, a mesquita de al-Aqsa, na Cidade Velha de Jerusalém.

Essa é a única referência a Jerusalém, que Israel considera sua capital ao arrepio de resolução das Nações Unidas, que deixam o seu estatuto para um futuro acordo de paz definitivo. E não explica a contínua tomada de território que fez minguar a Cisjordânia ao longo dos anos.

"Recompensa para Israel"

A reação dos palestinianos vai nesse sentido. Porque o "histórico" entendimento visa sobretudo a economia, a geopolítica e a popularidade de Netanyahu ("Durante anos Israel foi retratado como um inimigo... Agora mais países se juntarão a nós neste círculo de paz", disse o próprio) do que a proteção palestiniana. O que está em vigor - a ocupação militar - fica como está, tal como fica irremediavelmente aliviada e a pressão mundial para uma verdadeira paz, com dois estados. "Paz para quem? Não para os palestinianos", lamentou Sarah Leah Whiston, da Human Rights Watch.

"Que nunca experimentem a agonia de ter o vosso país roubado; que nunca sintam a dor de viver em cativeiro sob ocupação; que nunca testemunhem a demolição das vossas casas ou o assassínio dos vossos entes queridos. Que nunca sejam vendidos pelos vossos "amigos"", reagiu no Twitter Hanan Ashrawi, da OLP, que dirige a Autoridade Palestiniana, cujo presidente convocou uma reunião urgente. "Israel foi recompensada por não declarar abertamente o que está a fazer ilegal e persistentemente à Palestina desde o início da ocupação", disse, acusando os Emirados de apenas trazer à luz as já antigas relações secretas com Israel. Do seu lado, o Hamas, no poder na Faixa de Gaza, fala em "faca pelas costas".

Áreas de cooperação

Nos próximos dias serão assinados acordos bilaterais sobre "investimento, turismo, voos diretos, segurança, telecomunicações, tecnologia, energia, saúde, cultura, ambiente, estabelecimento de embaixadas recíprocas e outras áreas de benefício mútuo", define a declaração conjunta. A cooperação no desenvolvimento de uma vacina contra o novo coronavírus é outra das promessas, para "salvar muçulmanos, judeus e cristãos em toda a região".

Impulso à região

"Abrir laços diretos entre duas das sociedades mais dinâmicas e das economias mais avançadas do Médio Oriente transformará a região ao estimular o crescimento económico, realçando a inovação tecnológica e construindo relações pessoais mais próximas".

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