Reportagem em Kiev

"Antes da política vem a defesa da minha terra"

"Antes da política vem a defesa da minha terra"

Prytula é político e apresentador de TV. É um dos voluntários que ainda está na capital ucraniana para ajudar as tropas.

"Antes da política vem a defesa da minha terra". Quem o afirma é Serhyi Prytula, político e apresentador de TV conhecido na Ucrânia. Em 2014, com os acontecimentos que levaram à revolução EuroMaidan, decidiu partir no seu carro para sul para ajudar as forças armadas ucranianas. Encheu o carro do que pôde: sacos cama, medicamentos, comida, aparelhos de visão noturna, e claro cigarros, pois ali a espera podia ser longa.

Apesar de serem tempos turbulentos junto à fronteira com a Crimeia, ocupada pelos russos nessa altura, era maior a tensão e escassez destes bens do que a violência armada. Bem diferente da guerra que rebentava no leste da Ucrânia na região do Donbass e que levou depois à criação das Repúblicas Separatistas de Donetsk e Lugansk anos mais tarde. Oitos anos passaram e Serhyi continuou com a sua ação de voluntariado a angariar fundos, equipamento e a receber doações que depois entrega aos militares. É o que o seu centro de voluntariado faz agora em Kiev. "A Ucrânia é a minha terra e agora a guerra é global. Antes, no sul, via a placa a dizer território ocupado a 18 quilómetros da Crimeia, agora são a 18 quilómetros de Kiev. Por isso é aqui que temos de estar". Diz também que, quando os ucranianos pedem para fechar os céus, é apenas para defender "as mulheres e crianças que estão a morrer nas mãos do inimigo", não é para alvos militares.

Maria Pysarenko, a assessora de imprensa do centro, deixa escapar que o movimento de voluntários tinha intenções políticas de formar um partido. "Na segunda-feira antes da guerra tínhamos marcado uma reunião para tratar das formalidades legais, mas no dia 24 de Fevereiro veio a invasão russa e a guerra começou. Esta instalações parecem um escritório civil porque, na verdade, eram a futura sede do partido, que não chegou a avançar". Com a guerra tudo ficou congelado, e tornou-se secundário, concluí.

"O que interessa é ajudar a parar esta guerra e defender a minha terra que é a Ucrânia", diz Serhyi. Não é novato na política. Já teve ligações com o partido Voice a partir de 2019, pelo qual concorreu a deputado nesse ano, e depois a presidente da câmara de Kiev em 2020, afastando-se em 2021.

"A situação é grave. A Ucrânia, desde da revolução laranja em 2004, escolheu o caminho da democracia da aproximação à União Europeia, mesmo à NATO, e já mostrou que não quer obedecer ao Kremlin. Sempre tivemos boas relações com todos os países vizinhos, apenas a Rússia não aceita a nossa independência como Estado, nem a nossa independência de ideias", explica Serhyi numa mensagem bem articulada em inglês. "O nosso exército é mais experiente que antes, o exército russo não é maior é apenas mas longo, mas com o tempo vai encurtar e nós vamos ganhar", observa convicto.

O centro, um corrupio de voluntários, militares e civis, têm recebido ajuda nacional e internacional, de vários países europeus, sobretudo da Polónia, Alemanha e Itália. Mas uma das voluntárias confessa: "Temos muita falta medicamentos. Compressas grandes, torniquetes, analgésicos fortes, e também medicamentos para a ansiedade e o stress. Claro que a covid não passou mas agora ninguém pensa nisso, e se há soldados doentes, porque há, tomam antigripais e aguentam. Esta guerra é um problema bem pior, e é a prioridade", conta Natalia Grynko, uma das voluntárias que antes da guerra era programadora.

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Saiu de Kiev no início da guerra com os seus gatos e com amigos para Lviv em dois carros, numa decisão um pouco precipitada, pois no início do conflito não se percebia o que ia acontecer , mas depois decidiu voltar. Foi a única a fazê-lo do seu grupo. Tinha o irmão, estudante universitário e a mãe na capital ucraniana e não estavam preparados para sair. No centro de voluntários de Serhyi Prytula, oferecem a quem luta dispositivos de visão térmica e nocturnas, drones civis - muito úteis para revelar posições inimigas -, fardas e botas.

"Às vezes temos equipamentos esgotados por dias. Depois chegam mas acabam logo porque a procura é enorme", confirma Natalia. Este centro, está a ajudar também todos os grupos de defesa territorial que lhes pedem suporte, tanto militares como civis. "Baseamo-nos na confiança, há sempre alguém nosso conhecido nos grupos que nos fazem pedidos. E assim há um controlo informal. Tem funcionado bem assim.", afirma Maria Pysarenko.

A sede deste partido que ainda não existe, é um centro de voluntários que presta auxílio aos militares na retaguarda e situa-se numa zona central da capital ucraniana. Como numa colmeia todos os voluntários sabem o que têm que fazer, e persiste apenas um murmúrio de conversas curtas e movimentos calculados e já rotineiros. Tudo é urgente, coordenado e organizado. Os voluntários, quais abelhas obreiras, tratam das caixas e encomendas que chegam sem parar, como se de campo de girassóis tomado por um enxame se tratasse. Nesta colmeia alguns têm tarefas defensivas e por isso envergam armas que não pousam mesmo quando descarregam os caixotes que chegam, ou quando estão prontos para serem entregues. Podemos fotografar tudo, diz-nos, "exceto os mapas e as caras de quem não queira".

"Os russos têm provado que têm mapas desactualizados porque já atacaram pontos militares desactivados há mais de vinte anos". Para já a guerra prossegue não só com mapas do passado, mas também com ideias doutro tempo, pelo menos do lado do russo. Do tempo da cortina soviética que isolava a Ucrânia da Europa e do Mundo. Do lado da Ucrânia, o caminho é a Europa e a liberdade, e quem o aponta é o presidente Zelensky que permaneceu em Kiev, assim como os milhares de ucranianos que permitem que cidade funcione. A noite é longa e ninguém sabe até quando esta guerra, que já leva um mês, vai durar.

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