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As mentiras da "entrevista do século" a Diana. Príncipe William agradece investigação independente

As mentiras da "entrevista do século" a Diana. Príncipe William agradece investigação independente

O príncipe William felicita a investigação à histórica entrevista que a sua mãe, a princesa Diana, deu ao programa televisivo "Panorama" da BBC, em 1995. Passados 25 anos, veio a saber-se que Lady Di terá sido manipulada através de mentiras e documentos falsos pelo jornalista Martin Bashir para dar-lhe o exclusivo.

Corria novembro de 1995. Diana continuava casada com o príncipe Carlos, herdeiro ao trono britânico, mas já estavam separados há três anos. Na entrevista de Martin Bashir, perante 23 milhões de espectadores, a princesa de Gales expunha as suas fragilidades e os seus medos, a necessidade de ser ouvida. Questionou as capacidades do marido, abordou a infidelidade dos dois e fez o marcante comentário "éramos três neste matrimónio", referindo-se à amante de Carlos, Camila Parker Bowles (com quem se casou entretanto).

Esta foi considerada a entrevista "exclusiva do século" pela imprensa do Reino Unido. Agora, 25 anos depois, toda a trama de alegadas falsidades montada por trás desta conversa veio a público, através de programas dos canais ITV e Channel 4 e de declarações do irmão da princesa Diana, colocando em causa a credibilidade do programa "Panorama", do jornalista Martin Bashir e da própria BBC.

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O atual diretor-geral da estação, Tim Davie, já disse que "a BBC está determinada a descobrir a verdade" e que por isso encomendou "uma investigação independente". O príncipe William, o filho mais velho da princesa que morreu em 1997, quebrou o silêncio e diz agora que "a investigação independente é um passo na direção certa". "Deve ajudar a estabelecer a verdade por trás das ações que levaram à entrevista do Panorama e às decisões subsequentes tomadas por aqueles que estavam na BBC naquela altura", acrescenta a nota do Palácio de Kensington.

A BBC anunciou, esta quarta-feira, que o inquérito será conduzido por Lord Dyson, um dos juízes aposentados mais antigos do país e ex-juiz do Supremo Tribunal. Alguns detalhes sobre a forma como Bashir teria conseguido a entrevista já tinham chegado à imprensa em 1996, incluindo o recurso a documentos bancários forjados para obter a confiança do irmão de Diana e assim chegar a esta. Porém, uma investigação interna da estação televisiva ilibou o jornalista, que ganharia reputação à custa daquela conversa.

O jogo manipulatório

O documentário do ITV intitulado "A entrevista de Diana: Vingança de uma princesa" mostra que Bashir mentiu e falsificou documentos para manipular Diana e conseguir a histórica entrevista, fazendo-a acreditar nos seus amplos conhecimentos sobre a família real e que ela estava a ficar à margem, devendo impor-se.

Para chegar à princesa, usou primeiro o irmão desta, Charles Spencer, que agora revela a malha de mentiras em que foi envolvido por Bashir. O conde Spencer admite ter sido quem apresentou o jornalista a Lady Di, depois de este lhe ter mostrado dois extratos bancários (que se soube mais tarde serem falsos) que revelavam que dois dos guarda-costas da princesa estavam a receber dinheiro dos serviços de informações britânicos para a espiar.

Numa carta enviada no início deste mês à BBC, citada pelo jornal "Daily Mail", Spencer recorda o caso e expressa a sua indignação com a "desonestidade pura" da instituição, acusando Martin Bashir de "sensacionalismo". Sem esses documentos forjados, Spencer diz que nunca teria tomado a decisão de apresentar a sua irmã ao jornalista. Apontando o dedo à BBC por não aceitar "toda a gravidade da situação", o conde exigiu à estação que abrisse formalmente um inquérito ao caso.

Entre outras mentiras do jornalista agora divulgadas por Spencer a esse jornal, estão as de que a correspondência de Diana era aberta às escondidas, que o seu telefone estava sob escuta e que era seguida sempre que andava de carro.

Para lidar com este escândalo, a BBC está a tentar manter uma atuação exemplar, publicando diariamente no seu site os desenvolvimentos do caso e tendo-se já desculpado pelos documentos falsos. Com 57 anos, Martin Bashir é hoje editor de religião da BBC. Encontra-se a recuperar de uma cirurgia ao coração e de complicações sofridas por ter contraído covid-19, não se tendo ainda pronunciado sobre o caso.

As recentes investigações do Channel 4 e da ITV vieram clarificar a investigação original interna da BBC (1996), levada a cabo pelo então diretor de jornalismo Tony Hall, que concluiu que Bashir era "um homem honesto" e afastou da estação televisiva o designer gráfico Matt Wiessler, quem falsificou os documentos para Bashir.

Tony Hall, que em 2013 se tornaria diretor-geral da BBC, disse ainda à administração da BBC na altura que recebeu uma nota manuscrita da própria Diana, na qual ela deixava claro que os documentos falsos não eram a razão pela qual ela escolheu dar a entrevista. Perante os vários pedidos de acesso à nota, aquela instituição deu a carta por perdida por muito tempo, até que nos últimos dias a BBC anunciou que a tinha recuperado e que seria submetida ao inquérito independente.

No documentário da ITV, o designer Matt Wiessler diz ter sido o "bode expiatório" da investigação interna da BBC em 1996 e argumenta que a falsificação dos extratos bancários não foi ideia dele, chamando Martin Bashir a dar a cara.

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