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As mulheres e as minorias ao comando na administração Biden

As mulheres e as minorias ao comando na administração Biden

A partir desta quarta-feira, o Mundo espera ver mudanças nos Estados Unidos. Sai Trump e entra Biden. Não será uma mera troca de cadeiras. Num dos momentos mais tensos da História norte-americana, a administração do democrata vai alcançar vários marcos, entre eles, a equipa mais diversificada e plural desde que há memória.

Quando a 7 de novembro se confirmou que Joe Biden seria o próximo presidente dos Estados Unidos da América (EUA), os apoiantes do antigo vice-presidente de Obama festejaram e choraram na rua, esperançosos de que haveria mudanças significativas no país. A América dos últimos quatros anos, e especialmente dos últimos meses, esteve envolta numa nuvem de ansiedade. A começar nos protestos contra o racismo e a violência policial e a acabar nos números recorde de óbitos e infetados pela covid-19. Se provas não bastassem da tensão, o clímax foi a 6 de janeiro, quando centenas de apoiantes de Donald Trump invadiram o Capitólio e tentaram travar a confirmação de Biden como presidente eleito.

Consciente das "feridas" que enfraquecem o país, Joe Biden tem uma missão: demarcar-se de Trump e restaurar a união e confiança dos norte-americanos. "Prometeu um governo que se parecesse com a América num momento em que as tensões raciais e económicas estão ao rubro", afirma Daniela Melo, politóloga lusodescendente a viver nos EUA desde 1998.

Antes das eleições, Biden já preparava o terreno: começou com a escolha de Kamala Harris para ser a "número 2", a primeira mulher negra e sul-asiática a ocupar o cargo de vice-presidente dos EUA. Com a eleição garantida, o democrata preparou a administração dos próximos quatro anos, onde as mulheres e as minorias ocupam um lugar significativo. Para a politóloga ouvida pelo JN, as escolhas vão ao encontro do eleitorado do partido, "que é cada vez menos branco e muito sintonizado com todos os eixos da desigualdade social".

A pluralidade da equipa de Joe Biden, que ao longo destes meses tem sido elogiada um pouco por todo o Mundo, não é uma novidade nas administrações anteriores. Exceto com Donald Trump, presidente cessante, "que nomeou pessoas brancas para cerca de 80% dos departamentos". De acordo com Daniela Melo, "em termos de nomeações não-brancas para os 15 principais departamentos, Biden assemelha-se a Barack Obama e Bill Clinton". Contudo, os tempos são diferentes.

Biden terá desafios pela frente e o mesmo se poderá dizer da sua equipa. Apesar da sensibilidade "aos desafios que as mulheres e as minorias étnicas enfrentam", o próprio país vai querer respostas e soluções da nova administração, a começar pela recuperação da economia. A taxa de desemprego atingiu um máximo de 14,8% em abril do ano passado e em dezembro baixou para os 6,7%.

Por enquanto, a mensagem é clara: Biden quer "sentir o pulso do país, sobretudo no que diz respeito a questões de justiça social". Conheça alguns dos membros da nova equipa da presidência dos Estados Unidos, cuja nomeação ainda aguarda a confirmação do Senado.

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Kamala Harris foi um nome tão ou mais citado do que o de Joe Biden durante as eleições presidenciais. A escolha do presidente eleito dos EUA, dizem alguns, foi pensada para agradar a progressistas e a moderados. A vida da antiga procuradora da Califórnia está recheada de momentos de protestos contra a injustiça social. Uma característica que Biden quer preservar na nova presidência.

Filha de mãe indiana e pai jamaicano, quando era ainda uma adolescente de 13 anos, Harris liderou um protesto contra o proprietário do prédio onde vivia em Montreal, no Canadá. O problema? O homem tinha proibido as crianças de brincar no jardim. Anos mais tarde, a mesma menina tornou-se a primeira afro-americana a ser senadora pela Califórnia. Em 2004 chegou a procuradora-geral do mesmo estado.

Ainda durante as primárias democratas, Kamala Harris confrontou diretamente o agora parceiro de presidência. A antiga procuradora questionou o passado político de Biden sobre políticas de segregação racial. Neste caso, uma lei que consistia em levar crianças negras a frequentar escolas na periferia. "Havia uma menina na Califórnia que era transportada para a escola todos os dias. Essa menina era eu", afirmou. Para Harris, naquela altura, Biden não fez o suficiente.

Aos 56 anos, Kamala Harris torna-se a vice-presidente dos EUA. A primeira mulher no segundo cargo mais importante da democracia norte-americana. Harris, que já foi chamada de "monstro" por Donald Trump, terá os holofotes sobre si nos próximos quatro anos.

Aos 74 anos e depois de uma longa carreira ligada à economia e à finança, Janet Yellen vai ocupar o lugar de secretária do Tesouro dos Estados Unidos. Será a primeira mulher a fazê-lo, mas a economista e professora universitária está habituada a desbravar caminho.

Em 2014 foi nomeada por Barack Obama para presidente da Reserva Federal dos EUA - nenhuma mulher o tinha feito até então. Antes tinha sido vice-presidente da mesma instituição durante quatro anos. Saiu da presidência do banco central em 2018 por indicação de Donald Trump, que apesar de a substituir, considerou Janet Yellen "uma mulher maravilhosa que fez um trabalho excelente", recorda a Forbes.

Yellen foi uma das figuras da administração de Bill Clinton ao ocupar o cargo de presidente do Conselho de Consultores Económicos da Casa Branca entre 1997 e 1999. Durante anos dedicou-se ao ensino universitário: passou por Harvard, London School of Economics e atualmente leciona na Universidade da Califórnia.

Janet Yellen é um nome consensual entre democratas e republicanos. Terá o desafio urgente de recuperar a economia norte-americana, dizimada pela pandemia da covid-19, e de atenuar as desigualdades sociais e económicas.

Um dos focos de atenção de Joe Biden assim que assuma o mandato de presidente dos EUA é recuperar o país da pandemia da covid-19, não só em termos económicos, mas também na saúde pública. Para isso vai contar com a ajuda de Rachel Levine, pediatra de 64 anos, como secretária-adjunta da Saúde. Levine será a primeira mulher transgénero a assumir um cargo governamental nos EUA.

A professora universitária de Pediatria e Psiquiatria e até agora secretária da Saúde do estado da Pensilvânia "trará liderança firme e a experiência crucial", disse esta semana o presidente eleito aquando da nomeação da pediatra. Levine foi um dos rostos públicos da covid-19 na Pensilvânia, tendo antes servido como médica geral do estado. Teve uma clínica de saúde para adolescentes, e segundo Biden, vai liderar as políticas transgénero dos EUA no novo cargo.

Rachel Levine, ainda antes de chegar ao governo dos EUA, já era considerada um das poucas pessoas transgénero a exercer cargos políticos no país. Na Pensilvânia, a nomeação como secretária da Saúde foi aprovada em 2017 por uma maioria republicana, mas noutros estados o seu nome foi utilizado como uma arma de discriminação e arremesso. Durante a discussão de um projeto-lei sobre casas de banho para pessoas transgénero na Carolina do Norte, o presidente do Partido Republicano do Texas partilhou uma imagem de Levine no Twitter. "Você está numa casa de banho e esta pessoa entra. O que é que você faz?", escreveu.

A escolha de Rachel Levine para a administração Biden é considerada "histórica". "Todos precisamos para guiar as pessoas nesta pandemia, independentemente da sua raça, religião, orientação sexual, identidade de género ou limitação física", justificou Joe Biden.

Em 2018 foi uma das duas nativo americanas a ser eleita pela primeira vez para a Câmara dos Representantes. Deb Haaland, de 60 anos, representa o Novo México naquele órgão e deverá sair a 20 de janeiro, data de tomada de posse de Biden, para ser secretária do Departamento do Interior. A ser confirmado pelo Senado, Haaland será a primeira indígena numa administração norte-americana.

A congressista faz parte do Laguna Pueblo e tem descendência do Jemez Pueblo, ambos tribos nativo americanas reconhecidas pelo governo federal dos EUA. De acordo com fonte da CNN, Haaland terá sido escolhida por Biden porque passou grande parte da carreira "a lutar por todos os americanos, incluindo nações tribais, comunidades rurais e comunidades de cor".

A nativa americana terá o desafio de combater a crise climática, depois de quatro anos de negação por parte de Donald Trump. À futura secretária do Departamento do Interior caberá a gestão dos recursos naturais e a redução das emissões de carbono. Durante o mandato garante que vai ser "feroz". "Por todos nós, pelo nosso planeta e por todas as nossas terras protegidas", escreveu Deb Haaland no Twitter.

Em 2021 haverá um imigrante cubano ao leme do Departamento da Segurança Interna dos EUA. O nome dele é Alejandro Mayorkas, o primeiro latino a chefiar a entidade responsável pela política migratória do país. A mensagem não podia ser mais clara. Biden colocará alguém que se sofreu na própria pele o que é ser um forasteiro nos Estados Unidos da América.

Mayorkas é filho de um judeu cubano e de uma judia romena que fugiram de Cuba após a revolução. "Quando era muito jovem, os Estados Unidos proporcionaram a mim e à minha família um lugar de refúgio. Agora, fui nomeado para ser secretário do DHS [Departamento de Segurança Interna] e supervisionar a proteção de todos os americanos e daqueles que fogem da perseguição, em busca de uma vida melhor para eles e os seus entes queridos", escreveu nas redes sociais. O advogado de 61 anos, natural de Havana, terá uma importante missão: reverter as decisões anti-migratórias de Donald Trump.

Na verdade, não é apenas a história pessoal que o leva até ao governo dos EUA. A carreira profissional dita em grande parte a sua nomeação. Alejandro Mayorkas já tinha servido como vice-secretário do Departamento de Segurança Interna, entre 2013 e 2016, durante a administração Obama. Antes tinha sido diretor dos Serviços de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos.

O antigo procurador tem no currículo a arquitetura do DACA, a política de imigração que permite dar residência temporária aos imigrantes que chegaram em criança aos EUA sem documentos. Trump tentou travar o programa de Barack Obama, mas Biden promete reforcá-lo com alguém que o conhece bem. Alejandro Mayorkas que foi um refugiado, saberá melhor do que ninguém o que os EUA significam para quem procura uma "casa".

É o segundo ex-rival de Biden nas primárias democratas a ser escolhido para a administração, depois de Kamala Harris. Pete Buttigieg, de 38 anos, desistiu da corrida presidencial em março do ano passado e declarou apoio público a Joe Biden. Este ano vai tornar-se o primeira pessoa LGTBQ a estar à frente de uma pasta presidencial. Buttigieg, assumidamente gay, afirmou após a nomeação que terá os "olhos da História" em cima dele como secretário dos Transportes.

O antigo consultor empresarial, que é também tenente da Reserva da Marinha dos EUA, foi autarca de South Bend, uma pequena cidade do Indiana, durante oito anos. Nas primárias democratas chegou a estar na dianteira, o que o levou não só a querer derrotar Donald Trump, mas também a tornar-se o primeiro presidente de câmara a passar diretamente para a Casa Branca. Não aconteceu, mas Biden não se esqueceu dele. O presidente eleito chegou mesmo a compará-lo ao filho Beau Biden, que morreu de tumor cerebral em 2015. "É o melhor elogio que eu posso atribuir a qualquer homem ou mulher", disse.

Buttigieg, que nunca desempenhou qualquer cargo federal, tem agora uma oportunidade para mostrar o que vale a Biden e ao país.

Lloyd Austin não é um nome estranho dentro da cena militar dos Estados Unidos. O general reformado do Exército combateu no Iraque e no Afeganistão e tem mais de 40 anos de serviço na defesa do país. Aos 67 anos, está prestes a tornar-se o primeiro negro a dirigir o Pentágono, sede do Departamento da Defesa dos EUA. Mas não é figura consensual.

Apesar de Biden o considerar "um líder brilhante e respeitado e uma figura pioneira na história militar dos EUA", alguns democratas opõe-se à nomeação de Austin como secretário da Defesa. O Congresso norte-americano adotou um regulamento que prevê que um antigo militar possa apenas assumir a pasta da Defesa se estiver reformado há mais de sete anos. Não é o caso de Lloyd Austin, que se retirou do Exército em 2016. A maioria democrata poderá contornar o percalço ao conceder uma renúncia. Contudo, a decisão não é assim tão clara para todos.

Lloyd Austin foi o primeiro comandante negro no Comando Central dos Estados Unidos, entre 2013 e 2016. Antes tinha sido vice-chefe do Estado-Maior do Exército dos Estados Unidos durante a presidência de Barack Obama. Austin, segundo a CNN, terá uma forte relação pessoal com Joe Biden, uma vez que o filho Beau combateu no Iraque sobre as ordens do antigo general. Para o democrata, não há dúvidas: "está singularmente qualificado para lidar com os desafios e crises que enfrentamos hoje".

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