Moçambique

Beira volta a estar ligada ao mundo e alguns perdem negócios

Beira volta a estar ligada ao mundo e alguns perdem negócios

A cidade da Beira, no centro de Moçambique, vai voltar a estar ligada ao resto do país a partir da próxima noite, com os trabalhos de ligação em "contrarrelógio", como constatou a agência Lusa no local.

A Beira está isolada do resto do país por via terrestre devido ao corte da estrada nacional 6 na sequência do ciclone Idai, da semana passada, que provocou milhares de desalojados e centenas de mortes.

Hoje, na região de João Segredo, em Tica, onde a estrada foi totalmente destruída pela força das águas, trabalha-se a todo o vapor para fazer uma ligação provisória, de forma a que a região de Dondo fique de novo ligada a Nhamatanda, e daí para Manica, a oeste, Maputo no sul, ou as províncias a norte.

Outra interrupção na estrada, em Haluma, no lado de Nhamatanda, foi já reparada, e hoje camiões dos dois lados da estrada estão a descarregar pedras e terra no "lago" que as águas formaram, que duas máquinas de terraplanagem, uma de cada lado, vão aos poucos trabalhando de forma a construírem uma ligação improvisada.

Do lado de Nhamatanda a ligação decorre mais rápido, porque há pedreiras que abastecem o enchimento, mas do lado da Beira foi necessário destruir um parque de estacionamento para utilizar o betão.

Empresários chineses estão a coordenar os trabalhos e garantem que ainda hoje a ligação fica feita, sendo necessário depois uma camada de gravilha. Os responsáveis garantem que até às 04:00 de domingo o mais tardar a estrada estará aberta.

Entre a Beira e Tica, apesar do corte da estrada, o movimento rodoviário é ainda assim grande, sem contar com as centenas de pessoas que caminham ao longo da via, que serve também de local de socialização. Há pessoas de bicicleta, mas também outras apenas sentadas, mulheres de capulana (roupa tradicional) a conversar, jovens só olhando o movimento.

Mas movimento a sério é no local de João Segredo, centenas de viaturas à espera, outras tantas pessoas a passar a pé entre os dois lados da estrada, fazendo um desvio pela lama, às vezes enterrando-se acima do joelho, mas sempre sem largar as cargas, seja um saco de plástico cheio de alguma coisa, uma saca de batatas ou um saco de arroz, uma caixa, uma cesta de fruta, uma bicicleta. De um lado para o outro, sem hesitações.

A grande maioria das pessoas descalça-se ainda na beira da estrada de alcatrão, segura os sapatos e enterra-se depois na lama para contornar a água. Há de surgir do outro lado, cansada e com as pernas pretas de lodo, mas sempre com os bens a salvo.

Joana João, 19 anos e olho para o negócio, lá estará a vender uma garrafinha de água por dois meticais (um euro equivale a 72 meticais) e quem quiser uma limpeza mais profunda pode comprar uma de 10 meticais. A água vem das poças ali mesmo atrás, a mesma água que lhe levou a casa. "A água ficou com ela", diz quando questionada se tem casa.

Fernando Carlitos Mário, outro "empresário", 15 anos, levou para a beira da estrada um balde com sumos mas também gin. O gin fica a 60 meticais mas um refrigerante não vai além dos 20. Mora em Muda e desde que estrada ruiu está ali, todos os dias, a vender. E vende.

Como Elsa Francisco, também de Muda, 20 anos, a quem a casa "já foi embora", que todos os dias enche um balde de inhame e que vende cada pedaço a 50 meticais. Também vende. Menos ambiciosa, assim que acaba o balde vai para casa e só volta no dia seguinte.

Mas os negócios da beira da estrada estão agora no fim. Devem mesmo ter terminado hoje. Assim que seja feita a ligação, as centenas de viaturas que estão à espera, especialmente para entrar na Beira, vão passar sem parar.

E os que se enterravam na lama vão deixar de se descalçar.

Também, se tudo correr como os moçambicanos desejam, um destes dias sempre se iria acabar a matéria prima da Joana.