Explosões

Beirute: "A impressão é que a cidade deixou de existir"

Beirute: "A impressão é que a cidade deixou de existir"

Explosões no porto de Beirute deixam rasto de destruição e morte. Uma das pistas aponta para produtos explosivos armazenados há anos.

Uma autoestrada que se ergueu sob os rodados, carros abandonados com os airbags soltos, buzinas intermitentes, janelas espantadas sem vidros, nenhum em boa parte da cidade, rastos de sangue a partir de poças e a terminar no nada, provavelmente onde estaria um veículo que dali foi procurar assistência, feridos a caminhar rotos e ensanguentados, olhar ausente, perdido, sobre estilhaços, feridos atendidos no estacionamento de hospitais transbordados, dentro de carros até, um governador em lágrimas a explicar aos jornalistas que havia um incêndio e havia bombeiros a combatê-lo e, de repente, Beirute desapareceu momentaneamente sob um cogumelo de fumo como só se viu no Japão de há precisamente 75 anos - Hiroshima foi a 6 de agosto -, ou então nos filmes.

"Semanas de fogo constante de artilharia não conseguiriam causar tamanha ruína." Martin Chulov é correspondente do britânico "The Guardian" em Beirute. Esta terça-feira escrevia espantado como as janelas. "É preciso muito para abalar Beirute, que já se ergueu e caiu sob bombas várias vezes. Mas, numa cidade imune a explosões, isto foi algo de novo". E, àqueles que voltaram a pensar em bombas e belicismo com a vizinhança, as autoridades cortaram as vazas: ali não há sinal deliberado. Apesar de o estado técnico de guerra entre o Líbano e Israel e de conflitos recorrentes na fronteira com o Hezbollah, fontes israelitas asseguraram não ter nada a ver com o drama. E o Governo ofereceu ajuda, através de canais diplomáticos.

As explicações foram fluindo ao longo do final de dia, com uma única certeza: eram 18.10 horas no Líbano, menos duas em Portugal, quando o cogumelo se formou sobre um incêndio num armazém no porto de Beirute. Abrigava explosivos. À onda de choque silenciosa seguiu-se o estrondo e a cidade desfez-se em vidrinhos e morte, num abalo ouvido mar fora até Chipre, a 234 quilómetros dali. Esta noite, o Ministério da Saúde somava pelo menos 70 vítimas mortais, os feridos, esses, contava-os aos milhares.

Nitrato de amónio em causa

A grande dúvida recai sobre o que faziam "enormes quantidades de nitrato de amónio" (de fertilizantes) ali armazenadas há seis anos, confiscadas a algum navio, disse-o o diretor-geral das alfândegas e confirmou-o o ministro do Interior, Mohamed Fehmi. O primeiro-ministro, Hassan Diab, asseguraria, depois, que os responsáveis haveriam de "pagar o preço" e que seriam feitas revelações. Porque terá havido alertas para os riscos já em 2014. Agora, fala-se em gases tóxicos no ar, com a Embaixada dos EUA a pedir resguardo aos seus cidadãos.

"Isto faz lembrar o que aconteceu no Japão, em Hiroshima e Nagasaki. Nunca vi destruição deste tamanho e amplitude, e tão catastrófica. Isto é uma catástrofe nacional. É muito. É muito de uma só vez para o povo". Marwan Abboud, o governador de Beirute, soluça. Horas antes da explosão, centenas de manifestantes protestavam à porta do Ministério da Energia. Num Líbano exangue após anos de corrupção das elites, a braços com uma crise económica sem precedentes, metade da população vive na pobreza. E, agora, a sociedade perdeu 90% da capacidade de abastecimento em farinha: o porto, feito cenário de guerra, porque a incúria permitiu que explodisse. Descreve a escritora Hala Moughanie, ao "Le Monde": "A impressão que guardo é que a cidade deixou de existir."

Ajuda internacional

As ofertas de ajuda caíram de todo o mundo, do Golfo aos EUA, passando pela Europa e a Rússia e terminando em Israel, país que está tecnicamente em guerra com o Líbano e que ainda terça-feira avisava o Hezbollah depois de ter atingido alvos apoiados pelo movimento xiita na Síria.

Portugueses a salvo

O Governo português não tem indicações de cidadãos nacionais entre as vítimas mortais da tragédia. Além de alguns residentes, haverá cidadãos nacionais de férias no Líbano a ser contactados pela Embaixada de Portugal no Chipre, disse a secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, Berta Nunes.

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