Aviação

Boeing quer voar até ao final do ano com o avião envolvido em acidentes fatais

Boeing quer voar até ao final do ano com o avião envolvido em acidentes fatais

A Boeing pretende que o modelo 737 Max regresse aos céus até ao final do ano. É o mesmo avião que em apenas seis meses, entre outubro de 2018 e março de 2019, vitimou mais de 300 pessoas em dois trágicos acidentes.

Em março, de 2019, um Boeing 737, da Ethiopian Airlines, caiu e matou as 157 pessoas que seguiam a bordo. Fazia a ligação entre Adis Abeba e Nairobi. Apenas cinco meses antes, em outubro de 2018, um 737, da Lion Air, tinha caído ao mar, quando viajava de Jacarta para Pangkalpinang. Morreram 189 pessoas.

O que se seguiu foi um boicote mundial por parte das maiores empresas de aviação que suspenderam os voos com estes aparelhos. A Boeing foi obrigada a fazer modificações no "software" e sistema de controlo dos modelos de aviões 737 MAX 8 e 737 MAX 9. Os novos aviões foram mesmo proibidos de voar por organismos oficiais de segurança aérea de todo o mundo e a empresa acabou por admitir que errou na forma como lidou com o problema de um sistema de controlo de inclinação do aviões 737 Max, que terá levado à queda dos dois aviões.

Uma paragem com enormes custos, tanto na reputação da empresa, como nos relatórios financeiros. Em julho, a empresa anunciou ter perdido mais de 700 milhões de euros na primeira metade do ano, na sequência da imobilização dos aviões deste modelo. Números que apenas pioraram. Esta quarta-feira, a empresa deu conta de que os lucros nos primeiros nove meses do ano caíram 95% face ao mesmo período de 2018.

Descolar antes de 2020

Esta quarta-feira, Dennis Muilenburg, responsável máximo da Boeing, anunciou que a empresa se prepara para fazer regressar aos ares o modelo envolvido nos acidentes.

"A nossa maior preocupação continua a ser o regresso ao serviço dos modelos 737 Max e estamos fazer grandes progressos", disse. A empresa garantiu ter desenvolvido uma atualização dos planos de treino e que espera ter a autorização dos reguladores para que os aviões descolem antes do início do próximo ano.

"Também tomamos medidas para aprimorar ainda mais as nossas ferramentas relacionadas com segurança e continuamos a cumprir os compromissos com os nossos clientes, capturando novas oportunidades ancoradas nos nossos valores, qualidade e integridade", assegurou Dennis Muilenburg.

Já na passada terça-feira, a Boeing, através de um comunicado de imprensa, tinha anunciado a concretização de 800 voos de teste com um novo software aplicado ao modelo 737 MAX, num total de 1500 horas de voo.

Engenheiros pressionados para aprovar sistemas de segurança

A declaração do chefe máximo da Boeing surge poucos dias depois de mais uma notícia complicada para a empresa. O jornal "The Washington Post" teve acesso a um relatório interno em que ficou demonstrado que um em cada três engenheiros da empresa admitiu ter sido pressionado para aprovar os sistemas de segurança das aeronaves.

O relatório foi tornado público pouco depois de terem sido conhecidas mensagens escritas, em 2016, por um piloto responsável pela componente técnica destes modelos, Mark Forkner, dirigidas a outro funcionário, Patrik Gustavsson. Nas mensagens foram deixados alertas para os problemas no sistema de segurança da Boeing, que terão estado na origem dos acidentes de 2018 e 2019.

O departamento dos Transportes e Infraestruturas da Câmara dos Representantes disse estar a avaliar o inquérito no âmbito da investigação federal que está a decorrer ao modelo Max 737.

Acordo com famílias e milhões em indemnizações

Em setembro, a Boeing anunciou ter chegado a um acordo amigável com 11 famílias das vítimas do voo 610 da Lion Air. "No mês passado concluímos um acordo com a Boeing para 11 das 17 famílias que representamos", declarou hoje à agência noticiosa AFP Alexandra Wisner, uma das advogadas responsáveis por estes casos no escritório Wisner Law Firm, em Chicago.

De acordo com uma fonte próxima, o construtor aeronáutico norte-americano aceitou pagar 1,2 milhões de dólares (cerca de um milhão de euros) por vítima.