América do Sul

Bolívia. Virgem Maria, Jair Bolsonaro e "Macho" Camacho

Bolívia. Virgem Maria, Jair Bolsonaro e "Macho" Camacho

Luis Fernando Camacho é um dos principais responsáveis pela renúncia de Evo Morales à presidência da Bolívia.

Depois de assistirem à fuga de um presidente, Evo Morales, que se julgava reeleito - apesar de fortíssimos sinais a indicar o contrário -, agora, têm num indivíduo conhecido como "Macho" Camacho um potencial candidato a substituir o "desertor". Dir-se-ia que aos bolivianos já pouco falta acontecer.

Luis Fernando Camacho Vaca andou durante as três semanas anteriores à renúncia de Morales, no passado domingo, a pregar, para milhares, que a "Bíblia ia voltar ao Palácio do Governo". E a verdade é que, minutos antes do anúncio da demissão do chefe de Estado, o "Macho" entrou nas instalações presidenciais, na capital, La Paz, e colocou o livro sagrado do cristianismo sobre a bandeira boliviana. Uma declaração épica ou apenas o pezinho a deslizar para o "kitsch". Fica à consideração.

Nascido em Santa Cruz da Serra - cidade mais populosa da Bolívia e espécie de quartel-general da oposição a Morales -, a 15 de fevereiro de 1979, Camacho foi um dos principais instigadores da mobilização que forçou a renúncia do socialista - agora refugiado no México -, acusado de fraude nas eleições de 20 de outubro.

Gestos como a colocação da Bíblia sobre a bandeira e as constantes menções ao "poder de Deus" não passaram despercebidos. Pelo contrário. Já lhe valeram ser alcunhado de "Bolsonaro boliviano", em referência ao presidente do Brasil e aos seus discursos de cunho religioso.

"Protofascista"

Mas Camacho diz que não faz política. Conservador, advogado e membro das elites empresariais, sempre que se dirige aos apoiantes faz uma "oração ao Todo-Poderoso".

Não é chefe de Estado, mas já é presidente. Do Comité Cívico Pró-Santa Cruz - estrutura que reúne diversos setores da cidade, designadamente, empresas e sindicatos -, considerado o "Governo moral" da nação.

Numa das mais recentes aparições em Santa Cruz, num protesto contra Morales, o "Macho" surgiu acompanhado de uma imagem da Virgem Maria e com uma cruz como pano de fundo.

No auge da contestação ao presidente, Camacho escreveu uma carta de demissão "para Evo Morales assinar" e disse que iria a La Paz para entregar o documento. Dias depois, pousou na capital.

Foi a histeria. Milhares de pessoas receberam-no no aeroporto, na passada quarta-feira e, no dia seguinte, camponeses, produtores indígenas e produtores de coca aplaudiam-no de forma entusiasmada. De terço na mão, Camacho abraçou mulheres e aceitou um colar feito com folhas de coca.

Entre o nevoeiro da adoração, há quem considere que não é mais do que um "misógino de extrema-direita".

Julio Cordova, sociólogo: "É uma expressão da direita protofascista boliviana".

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG