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Boliviano a residir em Portugal: "Não houve nenhum golpe de Estado"

Boliviano a residir em Portugal: "Não houve nenhum golpe de Estado"

Boliviano a residir em Portugal defende que a renúncia do presidente Evo Morales, agora no exílio, foi apenas fruto de uma "pressão cívica".

António Acebey saiu da Bolívia há 20 anos, mas o elo de ligação com o país nunca desapareceu. Em tempos de caos político e social, o elo parece tornar-se ainda mais forte. O engenheiro mecânico, de 46 anos, a residir no Porto, faz parte de um grupo mais ou menos organizado que, a partir da internet, e das redes sociais, tenta explicar - na sua versão dos factos - o que se tem passado na Bolívia nos últimos tempos.

Um dos principais argumentos é a recusa de que a demissão de Evo Morales, presidente até 10 deste mês, resultou da pressão das Forças Armadas bolivianas numa tentativa de golpe de Estado. "Não houve sangue, não foi disparada uma única bala, foram sempre manifestações pacíficas por parte do povo", refere ao JN. "O presidente fez uma renúncia, não houve nenhum golpe de Estado. Foi uma pressão cívica."

O boliviano, com dupla nacionalidade, afirma que houve uma aproximação dos militares à luta do povo, descontente com as irregularidades nas eleições presidenciais de outubro, o que resultou na falta de confiança das Forças Armadas face a Morales. "A Polícia na rua começou a ficar do lado dos que se manifestavam. O Exército disse que nunca iria contra as pessoas e que o mais importante era a sua proteção", afirma Acebey.

O engenheiro mecânico esclarece que a comunidade de bolivianos que vivem no estrangeiro que se está a formar nas redes sociais - cujos elementos podem residir em países como a Alemanha ou os Estados Unidos - está atenta a tudo o que se passa na Bolívia. A única esperança para a paz reside agora na convocação de novas eleições presidenciais.

"O que se fala na Bolívia é que, caso não haja consenso entre o Movimento Democrático Social [de centro-direita] e o Movimento para o Socialismo [partido fundado por Morales] para marcar eleições, terá de ser ativado um decreto especial para resolver a incerteza a curto prazo."

Jeanine Áñez, presidente interina, entregou um projeto-lei no Congresso para acelerar o processo eleitoral e chegar a um entendimento político. Apesar de o partido de Morales ter reconhecido Áñez como chefe de Estado, o ex-presidente acusou, nas redes sociais, o Movimento Democrático Social de governar ao "estilo das ditaduras militares".

Nesta semana, os confrontos entre apoiantes de Morales e as forças de segurança fizeram oito mortos e pelo menos 30 feridos à porta de uma refinaria. Os manifestantes e defensores do ex-presidente estavam a bloquear o acesso ao local desde o passado dia 14, provocando graves constrangimentos no abastecimento de combustíveis e outros bens de primeira necessidade. A ONU já pediu uma investigação "rápida, exaustiva e imparcial" àquelas mortes.

Para já, de um lado da barricada, está um ex-presidente exilado no México e acusado de fraude eleitoral; do outro, uma presidente interina acusada de permitir a repressão policial nas ruas.

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