"Human Rights Watch"

Bolsonaro aprendeu com erros de Trump e "poderá atacar instituições da democracia"

Bolsonaro aprendeu com erros de Trump e "poderá atacar instituições da democracia"

O Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, aprendeu com erros de Donald Trump e poderá atacar as instituições da democracia em 2022 na tentativa de se manter no poder, avaliou esta quinta-feira o diretor executivo da Human Rights Watch (HRW), Kenneth Roth.

Numa conferência de imprensa organizada para comentar os dados do 32.º relatório anual da HRW, que faz um balanço sobre o cumprimento dos direitos humanos em mais de 100 países, o diretor destacou ser preciso "reconhecer que Bolsonaro aprendeu muito com Trump", ao comentar ataques recorrentes do líder brasileiro contra jornalistas.

"Muitas pessoas fazem um paralelo entre os Estados Unidos e o Brasil, que são democracias estabilizadas (....) No caso do Trump, ele perdeu, no caso do Bolsonaro, ele está com medo de perder as eleições. Ambos tiveram [oposição] de instituições fortes para defender a democracia", disse Roth.

O diretor da organização não-governamental (ONG) avaliou que quando Trump tentou enfraquecer as eleições de 2020 nos Estados Unidos da América fez isso de uma maneira amadora ao mandar uma multidão atacar o Capitólio e ligar para funcionários das zonas eleitorais pedindo uma recontagem dos votos.

"Temos que reconhecer que Bolsonaro tem uma vantagem sobre Trump porque já conseguiu ver o que aconteceu de errado com Trump. O que aconteceu de errado com Trump são os freios e contrapesos ao poder executivo, as outras instituições democráticas e entre estas instituições estão os jornalistas", destacou Roth.

"Bolsonaro viu o que faltou a Trump, então devemos esperar que Bolsonaro vá atacar as mesmas instituições da democracia que deram certo nos Estados Unidos. Ele pode atacar os jornalistas sim, ele vai tentar atacar a independência do judiciário e de funcionários públicos que defendem as eleições. Nós sabemos como este jogo é jogado", acrescentou o diretor da ONG.

No capítulo sobre o Brasil, a HRW destacou que o Presidente Brasileiro já ameaçou a democracia no ano passado ao "tentar minar a confiança no sistema eleitoral, a liberdade de expressão e a independência do judiciário", mas frisou que as tentativas do governante acabaram repelidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

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A ONG avaliou que o chefe de Estado brasileiro terá agido para intimidar o principal tribunal do país, que conduz quatro investigações sobre a sua conduta, incluindo se interferiu em nomeações da Polícia Federal a fim de promover os seus interesses pessoais, e se cometeu prevaricação em relação a um caso de suposta corrupção envolvendo a compra de vacinas para a covid-19.

Em 2021, Bolsonaro lançou uma cruzada contra o atual sistema de votação eletrónica, elogiado por observadores internacionais e em funcionamento desde 1996, que o chefe de Estado brasileiro considera suscetível a fraude embora nunca tenha apresentado provas que sustentem a sua opinião.

O líder brasileiro chegou a ameaçar não reconhecer o resultado das eleições presidenciais de outubro próximo, nas quais aspirará à reeleição, embora o claro favorito seja seu maior adversário político, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se um sistema de votação em cédulas de papel não fosse adotado.

Derrotado no Congresso que não aceitou a volta do sistema impresso de votação, o Presidente brasileiro recuou nos ataques, mas poderá voltar a colocar o pleito em causa caso perceba que será derrotado.

Comentando os ataques reiterados que o Presidente brasileiro faz contra jornalistas que questionam seu Governo, a diretora da HRW no Brasil , Maria Laura Canineu, destacou que a organização Repórteres Sem Fronteiras observou mais de 130 ataques do Presidente brasileiro contra jornalistas em 2021.

"A criação deste ambiente de ódio nas redes [sociais] pode provocar ações de facto nas ruas, ameaças à integridade física dos jornalistas nas ruas", avaliou a especialista.

"Este cenário de ameaça eu, particularmente, não tinha visto no Brasil desde a redemocratização [do Brasil após a ditadura militar 1964-1985]", concluiu Maria Laura Canineu.

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