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Jair Bolsonaro ataca Supremo Tribunal: "Acabou, porra!"

Jair Bolsonaro ataca Supremo Tribunal: "Acabou, porra!"

Investigação a rede de notícias falsas incendeia discurso. Presidente brasileiro diz ter "as armas da democracia na mão" e filho Eduardo ameaça com "rutura". Esquerda teme golpe militar.

"Acabou, porra!" Comentando aos jornalistas os 29 mandados de busca numa investigação a notícias falsas e publicações caluniosas nas redes sociais, ordenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 17 empresários, deputados, o ministro da Educação e ativistas bolsonaristas, o presidente brasileiro atacou o STF e criticou a Polícia Federal (PF), que é suspeito de querer controlar. "Obviamente ordens absurdas não se cumprem."

"Repito, não teremos outro dia igual (ao de) ontem. Chega! Chegámos ao limite. Estou com as armas da democracia na mão", acrescentou, sem detalhar. A investigação aponta a responsabilidade ao conhecido "gabinete do ódio", associado ao núcleo "ideológico" do presidente, pelos ataques digitais a membros do Supremo e do Congresso.

De algum modo assumiu que as revistas digitais, blogues e contas visadas são o seu apoio. "Querem tirar os media que eu tenho a meu favor sob o argumento mentiroso de "fake news"", comentou. "Algo muito grave está acontecendo na nossa democracia", escrevera anteontem no Twitter.

O aviso de Eduardo

O filho Eduardo, deputado federal, levou mais longe a retórica belicosa. Numa transmissão na Internet, recordou o golpe militar de 1964 e disse que poderá "chegar um momento de rutura (...) um conflito ainda maior".

"Falando bem abertamente: não é mais uma opinião de se, mas, sim, de quando isso vai acontecer", disse. "Quando chegar a um ponto em que o presidente não tiver mais saída e for necessária uma medida enérgica, ele é que será taxado como ditador".

""Acabou, porra!" Presidente Bolsonaro, chegou o momento, só depende do senhor. É sua iniciativa convocar O PODER MODERADOR DAS FORÇAS ARMADAS", escreveu no Twitter o ex-deputado Roberto Jefferson, visado na investigação. "Essa afronta à harmonia entre Poderes, que parte do STF, nos levará ao caos. O povo anseia por isso. Contragolpe".

Sobretudo as palavras de Eduardo, que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, considerou "muito graves", "colocam uma situação extremamente delicada no país", reagiu a líder parlamentar do Partido Socialismo e Liberdade, Fernanda Melchionna. "O povo precisa de tomar consciência do risco que o país corre de ter um golpe militar a qualquer momento", avisou o líder do Partido dos Trabalhadores no Senado, Rogério Carvalho.

Aposta no "centrão"

"O país precisa de equilíbrio e responsabilidade, não de radicalizações ou ameaças. Combatemos e combateremos qualquer tentativa de intimidação às instituições", advertiu o partido Democratas. De centro-direita, foi o único do "centrão" a demarcar-se da retórica belicosa de Eduardo, numa altura em que o pai joga tudo para ter o apoio deste bloco informal.

Nas últimas semanas, o presidente tem negociado o apoio de uma dúzia de partidos (Progressita, Liberal, da Social Democracia, Republicanos e outros), para fazer passar as suas propostas, mas especialmente para barrar os pedidos de destituição - que já vão em 36 - por causa da forma como gere a pandemia de Covid- 19 e das suspeitas de interferência na PF.

Contrariando a prática do "toma lá, dá cá" que criticou nas eleições, Bolsonaro garante a nomeação de "afilhados" para lugares importantes em ministérios, instituições e empresas públicas, em troca do voto do "centrão".

Nos últimos dias, a imprensa brasileira contou pelo menos sete nomeações indicadas pelo bloco para pastas e organismos que gerem orçamentos de dezenas de milhares de milhões de reais, alguns dos quais têm um reduzido controlo contra desvios e fraudes.

STF defende buscas

A maioria dos juízes do Supremo Tribunal Federal brasileiro considera que deve prosseguir o inquérito às notícias falsas aberto pelo STF, revelou o jornal "Folha de S. Paulo". O procurador-geral da República, Augusto Aras, nomeado por Bolsonaro, pedira a suspensão do inquérito, alegando que foram feitas buscas e são investigados deputados contra a sua posição e que o Ministério Público é que deve conduzi-lo.

Ministro ofende

Organizações judaicas e a Embaixada de Israel no país condenaram a afirmação do ministro da Educação, Abraham Weintraub, de que as buscas na investigação à rede de notícias falsas foi a "Noite dos Cristais" brasileira, acusando-o de "minimizar de forma descabida" o ataque que iniciou o holocausto de seis milhões de judeus.