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Bolsonaro quer expor funcionários que aprovaram vacinação infantil

Bolsonaro quer expor funcionários que aprovaram vacinação infantil

Regulador federal de saúde acusa presidente brasileiro de fazer "ameaças fascistas" e avisa que os resultados podem ser "trágicos". Diretores da Anvisa já foram ameaçados de morte.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Brasil, Anvisa, autorizou esta semana a aplicação da vacina da Pfizer contra a covid-19 em crianças dos 5 aos 11 anos. O Brasil junta-se assim à maioria dos países europeus, e aos EUA, Canadá e Israel, entre muitos outros, na adoção da vacina infantil contra a doença provocada pelo novo coronavírus.

Mas, ao contrário do que sucede nos governos dos países ocidentais, a mais alta figura do Estado é manifestamente contra a vacinação das crianças. E está a ameaçar publicamente os funcionários federais que deram a sua aprovação à medida sanitária de combate à pandemia.

"Queremos publicar os nomes dessas pessoas", disse esta sexta-feira o presidente Jair Bolsonaro, que usou um tom ameaçador na sua comunicação semanal ao país, que é feita em direto através da internet via Facebook.

"Vocês têm o direito de saber os nomes das pessoas que aprovaram a vacina para os seus filhos", precisou Bolsonaro, que tem 66 anos e continua a recusar a vacina para si próprio.

A ameaça parece ser séria: o presidente disse que não interferiu nos assuntos internos da Anvisa, mas pediu os nomes dos seus dirigentes, e pretenderá torná-los públicos. Para quê? Para que "os brasileiros possam fazer o seu próprio julgamento", disse.

"É um método abertamente fascista"

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"Publicar os nomes dos envolvidos na análise técnica não tem qualquer benefício numa democracia ", reagiu já a associação que representa os funcionários da agência reguladora de saúde. "Parece, em vez disso, uma ameaça de retaliação que resulta no incitamento de cidadãos privados, um método abertamente fascista e cujos resultados podem ser trágicos e violentos", disse a associação em comunicado.

Recorde-se que em outubro, a Anvisa já revelara que cinco dos seus diretores tinham recebido ameaças de morte, através de email, pela possível aprovação de vacinas para crianças. A agência já encaminhou queixas oficiais à Polícia e ao Ministério Público do Brasil.

Presidente promove desinformação

Esta não é a primeira vez que Bolsonaro tenta minar estratégias oficiais de combate à pandemia - que, no Brasil, já matou 618 mil pessoas e infetou 22 milhões, atirando o país para o top 3 dos piores do Mundo, juntamente com a Índia e os EUA. A incidência da pandemia, no entanto, diminuiu nos últimos meses graças ao avanço da vacinação, que é apoiada pela grande maioria dos brasileiros.

Sistematicamente, o presidente lança dúvidas sobre a eficácia e segurança das vacinas e continua a criticar duramente todas as formas de distanciamento social e também de uso de máscara sanitária. Em tempos, também partilhou a informação, manifestamente falsa, de que a vacina contra a covid-19 está relacionada com o desenvolvimento da SIDA (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida).

E publicita vídeo que chama "porcaria" à vacina

Esta quinta-feira, já após a aprovação da vacinação infantil pela Anvisa, Bolsonaro divulgou nas suas redes sociais um vídeo em que um homem não identificado classifica as vacinas como "porcaria". A publicação foi feita sem qualquer contextualização ou comentário da parte do presidente.

"Todo o mundo foi induzido a tomar essa porcaria porque achou que estaria imune. Resultado: os que se vacinaram estão passando a doença e não estão imunes", diz o homem no vídeo publicitado por Bolsonaro.

O homem acrescenta ainda: "Tem gente morrendo por outras causas e dão o nome de variante ómicron ou outra coisa", conclui, acrescentando que "o que as pessoas querem é liberdade de escolha".

Este comportamento de Bolsonaro não estará a contribuir para a sua popularidade: sondagens mais recentes dizem que o índice de aprovação presidencial caiu para a casa dos 20%, o mais baixo desde que tomou posse em janeiro de 2019.

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