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Brexit: "Ui, isto não vai ter nada de bom, carago"

Brexit: "Ui, isto não vai ter nada de bom, carago"

Emigrantes em Little Portugal sentem-se sob o céu carregado do "Brexit". Para já ninguém manifesta vontade de sair, mas todos ou quase dizem que para eles vai piorar

Dois dias depois da hecatombe - o Reino Unido votou para sair da UE, é inédito nos 65 anos do embrião da união dos 28 estados - há uma pequena mudança que os portugueses apontam a olhar para a rua: "Londres está muito mais silenciosa, não nota? É um silêncio meio estranho, acho que é de preocupação. Claro que tudo há de voltar ao normal, mas isso será outra questão. É que agora não sabemos o que vai ser o normal".

Ricardo Moreira, 37 anos, vindo da Praia das Maçãs, Sintra, vive e trabalha em Londres (opera na Tiles & Stones, empresa de construção e colocação de mármores, direcionada para as classes média e alta) há nove anos e, para ele, que apontou o silêncio surreal, este golpe de teatro ainda está agora a começar: "Ontem acordei em choque, acabou-se o status quo e isso traz-nos muita incerteza. Para mim, o maior medo que nos atravessa a todos é o medo do desconhecido, porque aquilo que os ingleses fizeram foi dar um tiro no escuro. E nem nós nem eles sabemos se acertaram no alvo, se acertaram em nós ou se afinal acertaram neles mesmos".

234 mil portugueses no Reino

O "nós" é "nós os emigrantes", os 234 mil portugueses oficialmente registados no Reino Unido ("Ui, somos muitos mais, há muitos não registados, seremos para aí o dobro, no mínimo. E se fizéssemos como os brasileiros, então éramos mais do triplo do número oficial", diz Edgar Melo, 53 anos, uma glória dos juniores do Sporting vindo de Aveiro. "Sou segundo primo do gazela negra, o Jordão!", que se junta à mesa atrás de um cabrito que fumega bem assado) e que agora temem o aperto à malha da imigração. É isso que dizem todos, sem exceção.

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"Essa foi a razão principal para eles votarem o não à Europa, eles querem poder controlar as suas fronteiras, não querem ter cá tanta imigração, não querem que lhes roubem os empregos", continua Ricardo. "E a segunda razão também é simples: os ingleses, como sabemos há séculos, não gostam que mandem neles como a Europa mandava. Foi por isso que se atiraram para a frente".

Na casa azul do Porto em Londres

Saía um cabrito assado, passavam francesinhas a suar (custam nove libras cada uma, 11 euros) e Ricardo juntou-se também à mesa no Café Porto, na Landor Road, Londres sul, na zona de Stockwell, onde haverá mais de cem estabelecimentos comerciais lusos e que por isso se chama comummente Little Portugal (serão uns 27 mil, os lusitanos aqui nesta parte de Londres, onde também há muitos brasileiros).

O café está cheio, muitos homens ao balcão, reina uma certa algazarra, há muita vozearia no ar, só se fala Português, nas duas televisões clama o rumor do futebol ("Olha, a Polónia ganhou à Suíça, ainda bem, o meu sócio polaco há de estar contente", torna o Ricardo, que é do Sporting) e há muita gente a entrar e a sair carregada com sacos e garrafas de Muralhas e pacotes tintos baratos de Lapato.

É um café extremamente portista, carregado de "memorabilia", evidentemente azul e branco, com posters de Gomes e Pedroto, camisolas autografadas, azulejos a dizer FCP, dragões brancos de louça quietos em panos de renda, fotos antigas dos Clérigos, das pontes, de Pinto da Costa quando era novo, e uma vitrina iluminada de taças na cave, entre as duas casas de banho, e um ecrã gigante onde a bola se ia jogar.

Chega o gerente, ainda há pouco andava de esfregona na mão, e ele há de contar a maior surrealidade do Café Porto de Londres, que ele explora há quatro meses: "Sabe, eu sou do Benfica e o meu outro sócio é do Sporting, talvez seja melhor não dizer nada a ninguém", revela ele a rir. Chama-se José Pedro Cabral, tem 48 anos, é casado, dois filhos - "Fui pai tarde, mas foi quando teve que ser, tenho um rapaz de cinco anos e agora uma menina de nove meses". Ele é de Mangualde, está aqui emigrado há 11 anos e já trabalhou muitas vezes na construção. A mulher é professora, veio de lá desempregada, assim continua, mas agora tem a criança e a bebé para cuidar.

A politica à mesa do café

É de José Pedro a súmula emigrante que define o "Brexit" (acrónimo que juntou as palavras Britan e Exit, esta última quer dizer saída) e toda esta confusão, saiu-lhe a frase naturalmente pelo ar: "Ui, isto não vai ter nada de bom, carago", diz ele a tentar descomprimir, mas a olhar para o cenário com apreensão.

"Acho que vamos atravessar aqui dentro um período de descolonização. Tenho pensado muito nisso e não chego a lado nenhum. O que é que eles vão agora fazer? Vão correr com os emigrantes? Vão fechar as fronteiras? E a economia, vai piorar? E a libra vai desvalorizar? Pois não faço ideia, nem eu nem acho que ninguém, mas nada disto, nada disto é bom", diz ele a discutir com Ricardo e Edgar os trâmites da transição.

"Isto ainda vai levar no mínimo dois anos até o UK sair da UE, mas essa negociação pode até chegar a demorar dez anos". Também eles sentem que o Reino Unido se pode agora desagregar - a Escócia, que votou maioritariamente para ficar, já disse que quer um referendo para lançar a sua própria independência de Inglaterra. Mas as suas preocupações são mais terrenas, porque quem está fora do seu país tem que saber olhar por si - e todos concordam que a partir de agora o melhor é andarem sempre bem informados, saberem sempre como fazer para aqui continuar.

"Eles que se entendam, né? O que não queremos é que corram connosco", sintetiza Edgar, há 27 anos a morar em Londres, casado, três filhos, um deles já formado, e sem vontade nenhuma de se mudar.

Os ingleses estavam fartos de ceder

Mais à frente neste pequeno enclave lusitano - veem-se bandeiras portugueses esticadas nas janelas, penduradas nas sacadas, também aqui se replica a febre futebolística nacional -, onde é tudo mais barato do que na City e o café expresso custa 1 libra (1,23 euros), menos de metade do que no centro, está o Sintra Café Snack. "É o estabelecimento português mais antigo daqui", diz orgulhoso Luís Barreiros, 65 anos, veio de Vendas Novas, há mais de três décadas que anda aqui, a apontar para a fachada verde da sua trindade, café, restaurante e supermercado.

Dos que ouvimos desde o referendo, Barreiros é de todos (é o único?) o mais tranquilo, adjetivo que não é alheio à sua idade. "Não, não tenho receio deste "Brexit". Nem receio nem medo. Estou bem estabelecido, sou residente definitivo, daqui a cinco anos volto para a terra para ficar", anuncia ele atrás do seu avental, ele que quando veio, veio sozinho, hoje tem cá a mulher, o filho nasceu inglês, já fez 21 anos, os olhos levemente a sorrir.

Mas, Luís Barreiros, por que é que isto aconteceu, por que é que os ingleses querem sair da Europa unida? "Porquê? Por causa dos emigrantes, eles ficaram saturados. Foi por isso e pelas leis europeias, eles estavam fartos de ceder. E para um inglês ter que ceder à Alemanha ou à França... bom, para eles é dose de mais". E para vocês, isto vai ser bom ou vai ser mau? "Pois é cedo para perceber. É um divórcio, é uma coisa nova para a UE e isto ainda está no embrião. Só daqui a dois anos, ou mais, é que saberemos o que daqui vai nascer", diz Luís Barreiros, que emprega no Sintra Café dez empregados, "todos portugueses, pois claro".

180 libras à semana por um quarto

Se os mais velhos estão mais sossegados, os mais novos não sabem o que pensar. É o que diz a cara de Maria Amaral, viseense, 23 anos, unhas verdes, cabelo loiro, empregada de servir ali no meio de Little Portugal. Veio do Porto para Londres há ano e meio, não tem filhos, veio de trabalhar à mesa no My Palace. "Vim para compor a vida, pois, aqui ganha-se muito mais, claro". Na altura veio sozinha, Maria, agora já cá tem o namorado, o Carlos, 26 anos, de Cinfães do Douro, ele chegou em Agosto, trabalha na construção civil. Os dois dividem a renda por um quarto, pagam 180 libras por semana pelo quarto (são 221 euros, o que dá 884 euros de renda mensal), a cozinha e a sala de banho são a dividir por todos os habitantes de uma casa com cinco quartos. "Pois aqui ganha-se mais, mas não é fácil, trabalha-se muito, sabe, e também é tudo mais caro do que lá em Portugal". Não saberá dizer por que é que o "Brexit" a tolhe, Maria, sabe só que "vai ser pior, sobretudo para nós, os estrangeiros, e, claro, vai ficar tudo ainda mais caro. Só espero é que dê para aguentar".

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