Reino Unido

Polémica e crise política: "Bye, bye, Boris!"

Polémica e crise política: "Bye, bye, Boris!"

Trabalhistas e conservadores dissidentes despedem-se alegremente de Johnson. Primeiro-ministro também se demite dos "Tories", mas faz um caso de resistência pessoal e quer ficar no cargo até eleições gerais antecipadas. Nova moção de censura à vista. Crise vai parar ao gabinete da rainha.

Boris Johnson sempre cede à debandada de 52 membros do próprio elenco governativo - contados ao início desta manhã de quinta-feira - e também se demite da liderança do Partido Conservador, mas recusa abandonar o cargo de primeiro-ministro britânico e quer manter-se no n.º 10 de Downing Street até eleições gerais antecipadas, para "evitar o caos", "garantir a governabilidade" do reino e "proteger o partido" dos prognósticos de uma derrota anunciada nas urnas. Nas próximas horas, vai dirigir-se ao país e enunciar as razões que lhe assistem.

À saída da sessão vespertina na Câmara dos Comuns, decorrida na quarta-feira, o primeiro-ministro britânico já tinha sido vergado ao coro de despedidas irónicas, dispensadas pela bancada trabalhista e pelos próprios congéneres dissidentes do Partido Conservador. "Bye, bye, Boris!".

Debandada geral

Em menos de 48 horas, as demissões em cascata empurraram Johnsson para a porta de saída. Contando seis ministros, secretários de Estado e parlamentares que exercem funções nas diversas pastas e gabinetes, a imprensa britânica registava a resignação de 52 dos 120 membros do Governo.

A razia, ainda provisória, foi completada esta manhã, com o anúncio da renúncia do ministro britânico para a Irlanda do Norte, Brandon Lewis, e da ministra da Educação, Michelle Donelan, nomeada havia menos de 24 horas. De quarta-feira sobrou, ainda, a queda de outro ministro, Michael Gove (Habitação e Comunidades), mas este exonerado por Boris Johnson, que aceitou a sugestão de renúncia que lhe propusera o também conselheiro.

Crise chega à rainha

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Dois anos e meio após a larga vitória nas legislativas de 2019, Boris vê-se, assim, cada vez mais pressionado. A crise política chegará rapidamente ao Palácio de Buckingham, para que a rainha convoque eleições gerais antecipadas. E até bem mais depressa do que o primeiro-ministro prevê, porque, embora regulamentarmente protegido durante um ano de nova moção de confiança - após ter sobrevido à de 6 de junho último, na sequência das festas na residência oficial, em plena fase de confinamento imposto pela pandemia de covid-19 -, poderá ser novamente chamado a uma prova de confiança se a nova comissão executiva dos "Tories", a eleger e a instalar na segunda-feira, seguir as indicações de muitos dos candidatos e proceder a alteração de estatutos que possa exonerar imediatamente o primeiro-ministro.

Um beliscão, um terramoto

E tudo isto precipitado pelos apalpões de uma deputado... O terramoto político que sacode Londres tem um nome: Chris Pincher. Seria um discreto jurista de 52 anos, oriundo da província, das bases conservadoras das West Midlands, se não fosse o causador da demissão em série de ministros, em dissidência com a suposta ligeireza com que o primeiro-ministro lidou com os sucessivos escândalos sexuais que envolveram o deputado.

Um ex-chefe de gabinete do primeiro-ministro diz que Boris estava bem ao corrente do comportamento devasso do deputado e que isso não impediu que o nomeasse ministro-adjunto dos Negócios Estrangeiros, em 2019. "Por que é que lhe ligou várias vezes, a rir-se e a dizer-lhe "Pincher by name, Pincher by nature" [Beliscador de nome, Beliscador por natureza"] muito antes de o nomear?", questionou Dominic Cummings, na quinta-feira da semana passada, horas depois de ter rebentado o escândalo.

Testemunhas citadas pela imprensa britânica contam que Pincher saiu do bar tão embriagado que houve necessidade de o ajudar a entrar num táxi. O próprio deputado assumiu a culpa e não demorou a pedir demissão do cargo de vice-presidente da bancada do Partido Conservador na Câmara dos Lordes: "Na noite passada, bebi de forma excessiva, envergonhei-me a mim e a outras pessoas e isso é a última coisa que quero fazer. Peço desculpa, a si e a todos os implicados", confessou, em carta endereçada a Boris Johnsson.

"Bons e leais serviços"

Pincher também prometeu que ia procurar ajuda médica, mas o ato de contrição já não foi a tempo de evitar a cadeia de demissões que origina uma crise política de efeitos incalculáveis. O incidente da última semana não foi o primeiro e o deputado tem um vasto rol de de denúncias de assédio, acumuladas ao longo das duas últimas décadas e reveladas desde 2017.

Um desses episódios foi contado por um antigo remador olímpico: Alex Story, também militante do Partido Conservador, contou que em 2001, quando tinha 26 anos, foi a casa do deputado e que este lhe desapertou a camisa e lhe disse que "ia longe no Partido Conservador".

Da queixa do atleta resultou uma investigação interna. A Sky News relata que Chris Pincher foi absolvido e reintegrado no Governo pela ex-primeira-ministra Theresa May. Sobram muitas outras histórias mais ou menos públicas de comportamentos desadequados com outros jovens militantes do Partido Conservador, sempre com alegadas promessas de progressão, mas nunca com consequências para a carreira do deputado.

Pelo contrário, neste tempo todo, Chris Pincher mostrou "bons e leais serviços" a Boris Johnsson, sobretudo na "arte de bajular", como lhe chama o New York Times, e de seduzir outros juristas conservadores para a "Operation Save Big Dog" [literalmente, "Operação de Salvamento do Cão Grande"], o próprio primeiro-ministro, quando teve de submeter-se e escapar por um triz ao voto de confiança do partido após o escândalo das festas em Downing Street durante a época de todas as restrições sanitárias impostas pela covid-19.

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