EUA

Biden e Trump em pé de guerra judicial

Biden e Trump em pé de guerra judicial

Joe Biden vira o Wisconsin, o Michigan e talvez o Arizona a seu favor. Pode estar aqui o início da "onda azul". Trump contesta em tribunal derrota em vários estados.

Não se viu a enxurrada, não houve cabazada, a noite eleitoral americana não foi o "sonho azul" com que os democratas fantasiavam quando viam as sondagens dar ao seu candidato Joe Biden mais de 7% de vantagem sobre o atual presidente, o republicano Donald Trump. Não houve nada disso, só ansiedades, foi uma noite para morder as mãos - e que a dado passo alarmou o Partido Democrata, que desatou logo a ver os fantasmas frios de 2016, quando a noite abriu desanuviada de azul e depois se tingiu toda de vermelho. Foi quando Trump virou a Florida a seu favor, virou o Ohio e logo depois confirmou o Texas, bastião conservador que os liberais sonhavam agora conquistar e que não vencem desde 1976, quando Jimmy Carter bateu Gerald Ford.

Estávamos anteontem a assistir à famosa "miragem vermelha", situação em que Trump, enganando todos os sentidos, ia virar de novo o xadrez e a perceção da eleição? Sim, estávamos. Mas depois falou-se no Arizona.

Foi a Fox News, o canal de TV de direita que alinha axiomaticamente pela ideologia de Trump, a dar a novidade que minutos depois enfureceu o presidente incumbente: o flip-flop do Arizona, que mudou de cor. E que pode ter mudado esta votação.

O estado que viu nascer o trumpismo e que o milionário republicano ganhou em 2016 com 91 mil votos de diferença, foi o primeiro a mudar de mãos nesta eleição, projetou a Fox News a meio da madrugada. Trump ficou "lívido" - ou pior: "Não há palavras para descrever a fúria do presidente", reportou Jim Acosta, jornalista da rival CNN, citando um conselheiro presidencial. Não ganhar o estado que qualquer presidente republicano ganhou desde 1996, obrigou a reconfigurar todos os cálculos: o Arizona vale 11 votos no Colégio Eleitoral e, à hora de fecho desta edição, com 86% de votos contados, Biden segue 3,5 pontos à frente, com mais 93 mil votos do que Trump. E terá começado a germinar aí o princípio do fim da esperança republicana, que ameaça barricar-se agora nos tribunais. Ontem, eram 22 horas quando a FoxNews voltava a confirmar o dado: o Arizona é de Biden. Já a cautelosa Associated Press lho dava havia horas.

Depois, às 7 da tarde de ontem, outra arreliação atinge os republicanos. A Associated Press anuncia: Joe Biden venceu o Wisconsin, revirando um estado que foi crucial há quatro anos para Trump chegar à Casa Branca.

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O alarme tocou: o diretor de campanha de Trump anunciou de imediato que vai pedir uma recontagem no Wisconsin, procedimento que pode demorar até duas semanas. O alarme toca outra vez: a campanha republicana abriu um processo para suspender a contagem no Michigan, onde seguia atrás de Biden por 67 mil votos, talvez um pouco tarde - o estado era creditado aos democratas pelas nove da noite; a alegação é que não foi concedido acesso aos republicanos a vários locais de contagem na abertura das urnas.

E agora, 48 horas depois do ato eleitoral, a América ainda não sabe que presidente vai ter. Últimos dados: Biden já somou 264 votos no Colégio Eleitoral (contando o Arizona, a seis votos da vitória, portanto); Trump tem 214. O vencedor terá que somar 270.

As contas de cada um

Vai tudo dar aqui: os resultados de cinco estados decisivos ainda estão por revelar, mas Joe Biden pode dar-se ao luxo de até perder em três deles, um luxo que Trump não tem - ou seja, o seu caminho é muito mais estreito.

Por partes: se Trump perder a Pennsylvania (20 votos no Colégio Eleitoral, Trump lidera mas faltam entrar 1,4 milhões de boletins que serão na maioria democratas; a contagem seguirá até sexta-feira), então, para ganhar, só pode perder o Nevada (6 votos no Colégio), o estado que Hillary Clinton capturou em 2016. Para se manter presidente, Trump teria que ter ganho na Geórgia, na Carolina do Norte, no Michigan e Wisconsin (já perdeu ambos).

Do outro lado, se Biden perder o voto operário da Pennsylvania, pode prescindir de mais dois estados e ainda ganhar a presidência. Por exemplo, se triunfar no Nevada (segue à frente com 49,3% contra 48,7% de Trump; a contagem parou e só será atualizada esta quinta-feira), e como tem o Michigan ganho (16 votos no Colégio), Biden será o vencedor mesmo que perca os estados do sul, Geórgia (16 votos colegiais) e Carolina do Norte (15).

Mas mesmo nesses dois estados, o democrata tem boas perspetivas. Na Geórgia, onde segue 26 mil votos atrás de Trump, as autoridades têm 250 mil boletins restantes para contar e a maioria deles virão de Fulton e de DeKalb, dois condados historicamente azuis. Na Carolina do Norte, a maioria dos votos por correio, ainda não contabilizados, estão nos maiores condados do estado, Wake e Mecklenburg; o "deadline" para os contar só termina no dia 12.

Duas posturas distintas

Submersos na incerteza - a América só sabe que vem aí um pântano de batalhas legais nos tribunais (ler ao lado) -, os dois candidatos estão com posturas diferentes. Ainda na noite eleitoral, Biden foi o primeiro a falar. Sublinhou dois aspetos: "A contagem dos votos por correio vai demorar e temos que ter paciência porque todos os votos têm que ser contados", disse o democrata de 77 anos. "Estou otimista."

Duas horas depois, Trump, de novo frenético no Twitter, que lhe bloqueou "mensagens enganadoras", surgiu na TV para dizer o que dele se esperava - com acusações infundadas: "Estamos a subir muito, mas eles estão a tentar roubar a eleição. Nós nunca vamos deixá-los fazer isso. Os votos não podem ser contados após o encerramento das urnas!" - uma clara mentira sem respaldo legal.

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