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Donald Trump pode sair de cena, mas o trumpismo fica na rua

Donald Trump pode sair de cena, mas o trumpismo fica na rua

Retórica belicosa e prática discursiva de presidente cessante deve deixar de contaminar o Congresso, mas a agenda de extrema-direita abre clivagem.

Se a Casa Branca for entregue a Joe Biden, Donald Trump poderá sair de cena, mas o trumpismo, sobretudo no que significa de radicalização, como o mostram os protestos a exigir a paragem da contagem dos votos, vai permanecer nas ruas e na sociedade. Os mais de 68,5 milhões de votos que alcançou têm um um significado: a clivagem nunca terá sido tão grande.

Que elementos do trumpismo - da retórica belicosa ao nacionalismo demagógico, da grosseria ao incentivo ao ódio racial - vão permanecer além de Trump, entre os cidadãos e nas instituições políticas?

"Não creio que o trumpismo seja uma cultura dominante. O que é dominante, quer ganhe ou perca, é a prevalência de uma cultura populista que está lentamente a tomar conta de um largo setor da opinião pública", comenta ao JN o embaixador Seixas da Costa.

Impressiona-o a transmutação de Trump: em 2016, ele "é uma figura mediática rica e de sucesso que, de repente, aparece com um projeto político ao qual agrega uma agenda que claramente lhe foi vendida - não é dele, provavelmente nunca leu um livro sobre isso -, uma agenda de causas conservadoras tradicionais". A ela somou "um conjunto de princípios da agenda internacional radical com proximidade muito grande com a extrema-direita europeia" que lhe vendeu o ultradireitista Steve Bannon.

Agora, "o Trump de 2020 é o Trump de 2016 somado de quatro anos de prática e mais seis milhões de votos (do que há quatro anos). Quando pensávamos que os quatro anos tinham sido uma prática bizarra, exótica, primária e caricatural do exercício do poder, verificamos que tem mais votos. Significa que há um mundo "trumpista", capaz de interiorizar o que ele vocaliza. E esse mundo esta aí, permanente: metade dos americanos votaram nele!"

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Noutras eleições, os resultados também estiveram muito próximos, "mas não com esta clivagem muito profunda e cultural que se está a viver, com uma hostilidade muito grande, com movimentações de rua inéditas", observa. "Estamos hoje com uma tensão social gravíssima, é algo que veio para ficar".

Seixas da Costa crê que Trump deixe a ribalta. "Na tradição americana, não há líderes da oposição nos três anos após as eleições. O líder da oposição só emerge um ano antes das eleições. O mais previsível é que recolha aos seus negócios".

China: caso de consenso

Mas terá Trump moldado os congressistas? " Não acredito que o tipo de prática de Trump discursiva vá sobreviver no Senado ou na Câmara dos Representantes", diz. "Figuras como Cruz e outros colaram-se a Trump porque lhes deu jeito, mas não acredito que aquela prática discursiva primária sobreviva no dia a dia da política".

Outra questão é saber se as ruturas abertas na política externa são reversíveis. Seixas da Costa crê que a China "é um caso típico em que muito poucas mudanças haverá", porque a questão de encarar o gigante asiático "como um adversário fundamental dos EUA é comum entre republicanos e democratas". Talvez Biden opte por um discurso mais dialogante e até de cooperação, mas não mais do que isso.

Já quanto ao Acordo de Paris sobre alterações climáticas, Seixas da Costa não tem "a menor dúvida de que Biden regressará com a maior das facilidades e que vai haver um maior diálogo com a Europa", da qual Trump foi um "aliado hostil".

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