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Donald Trump trunca tweets alheios para acentuar narrativa de fraude eleitoral

Donald Trump trunca tweets alheios para acentuar narrativa de fraude eleitoral

Donald Trump passou pelo Twitter, esta manhã, antes de pegar nos tacos para ir jogar golfe. E foi à tacada que usou mensagens alheias, de forma truncada, para acentuar a narrativa da fraude eleitoral que defende desde a noite de 3 de novembro.

Primeiro, as últimas mensagens, de uma série de seis, todas sinalizadas pelo Twitter como "passíveis de serem contestadas". Donald Trump usa excertos de um texto de Jonathan Turley, um conhecido analista político, advogado e especialista em comunicação social, para ajudar à narrativa da fraude eleitoral.

No entanto, os "tweets" usados por Trump não constam do Twitter de Turley. São frases que parecem extraídas de um artigo que o analista político escreveu sobre o perigo de anunciar um vencedor quando ainda havia votos por contar e por verificar.

E mesmo assim, as frases "postadas" por Trump são diferentes das que se podem ler no Twitter ou artigo de Turley, que recorda a celebração antecipada no caso de Kennedy-Nixon, em 1960, e de Gore-Bush filho, em 2000. Exemplos usados para contextualizar problemas do sistema eleitoral norte-americano e alertar para o risco de cantar vitória antes de todos os votos estarem contados.

"Parece realmente que Biden ganhou esta eleição e o discurso de ontem à noite foi o exemplo e a mensagem perfeita para uma nação dividida. No entanto, ainda há desafios legais a ser apresentados em meia dúzia de estados, novos depoimentos com alegações juramentadas preocupantes e disputas estaduais relativamente acirradas", escreve Turley, sobre o risco de declarar Biden prematuramente. "O problema para os analistas legais é que enquanto decorre a organização dos dados há pouca margem para julgar alegações de irregularidades nos votos", escreve Turley.

Sublinhando que "não há atualmente provas de fraude sistemática na eleição" Turley, admite, no entanto, que "há amplas razões para fazer revisões" aos votos. "O próprio Biden deve dizer ao Partido Democrata para apoiar estas revisões", acrescenta.

O que aparece no Twitter de Trump é um pouco diferente do que Turley escreve. "Devemos examinar essas alegações. Estamos a assistir uma série de declarações de que houve fraude eleitoral. Temos uma história neste país de problemas eleitorais", escreve o presidente em exercício no Twitter, atribuindo a frase, descontextualizada, a Turley.

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No texto, o que está escrito continua diferente do que Trump republicou. "Não sabemos ainda se há evidências de fraude sistemática ou irregularidades. Na verdade, tenho a sensação que nem a campanha de Trump sabe. Além disso, a equipa legal do candidato republicano não apresentou provas concretas para suportar estas alegações", escreve Turley, concedendo que, para ser justo com a campanha de Trump, "é difícil produzir provas quando se é impedido de aceder aos boletins ou a ficheiros fundamentais", como alegam os republicanos e contestam os democratas.

"Cem milhões de votos em duas cidades", que valem apenas 1,5 milhões...

"Nunca tivemos uma eleição com um número tão elevado de votos por correio e há preocupações óbvias sobre a autenticação dos votos", diz Turley, aludindo a relatos que correm nos EUA sobre eventuais boletins preenchidos em grupo ou em nome de pessoas falecidas.

Nunca menciona casos específicos, nem lugares. Mas no Twitter de Trump aparece uma frase, atribuída a Turley, a mencionar preocupações com "100 milhões de votos por correio em cidades como Filadélfia e Detroit com uma longa série de problemas eleitorais".

Uma citação além do óbvio problema de nenhuma daquelas cidades somar sequer, remotamente algo parecido com 100 milhões de votos - o total de boletins enviados pelo correio a nível nacional, correspondente a dois terços de todos os boletins registados nas eleições de 3 de novembro.

Em Detroit (Michigan, que o democrata conquistou aos republicanos), maior cidade do condado de Wayne, votaram cerca de 851 mil pessoas (587 mil para Biden e 264 mil para Trump). Em Filadélfia votam 693 mil pessoas, 566 mil no pretendente e 127 mil no incumbente.

Pescadinha de rabo na boca ou o quem retweetou quem

No caso dos tweets atribuídos a Newt Grinch, ex-presidente da Câmara dos Representantes e autor de um livro em que escreve sobre Trump como o futuro da América, a questão é ainda mais confusa.

Dos dois tweets que Trump atribuiu a Grinch, apenas um está no Twitter do apoiante, e como retweet. Em português; das duas frases que Trump atribuiu ao aliado, apenas uma está na página de Grinch, mas como citação ao que está no Twitter de Trump. Uma espécie de pescadinha de rabo na boca que não se sabe bem quem meteu na sertã (ou frigideira, como se diz em algumas partes de Portugal).

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