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Análise

É esta sensação de "déjà vu"

É esta sensação de "déjà vu"

Quatro anos, duas noites e o improvável acontece. Duas vezes. As sondagens são uma ilusão. Falta saber se os votos pelo correio também.

São três da madrugada de quarta-feira, dia 4 de novembro de 2020. É apenas um pouco mais cedo do que em 2016, naquela noite em que o improvável aconteceu: Donald Trump, um outsider da política vindo diretamente do showbiz televisivo e do mundo dos multimilionários, foi somando votos para o Colégio eleitoral até, às cinco da madrugada, ser incontornavelmente eleito 45.º presidente dos Estados Unidos. É apenas um pouco mais cedo. O empresário arrancou mal, os vários meios de comunicação norte-americanos, cada um com as suas projeções, foram pintando os mapas de vermelho, o azul cada vez mais ténue, e o improvável parece acontecer uma segunda vez. Trump estaria reeleito, ao cabo de várias taquicardias, arrumadas à medida que as contas se fecham, estado após estado.

Estava escrito um pouco por todo o lado, a importância das primeiras horas, que indicariam a tendência nacional, teria que ser lida na Florida. Demorou uma hora, talvez um pouco mais, até a tendência ficar ali definida: republicana. Passou-se para o Ohio, aquele estado que vem, há várias eleições, escolhendo aquele que acabaria por chegar à Casa Branca. Os democratas sonharam por, talvez, duas horas. E tiveram que dar a mão à palmatória. Depois a Carolina do Norte e aquela leve e infantil esperança de roubar o Texas aos vermelhos, incrível, estava a acontecer como acontecera em 1976 com Jimmy Carter, até que o sonho foi interrompido. Seria tudo uma ilusão? Como, mais uma vez, as sondagens parecem uma ilusão. Porque todos estes eram aqueles estados caprichosos que era importante vencer para se ser presidente e porque o avanço que era dado a Joe Biden, ex-vice-presidente de Barack Obama, não aconteceu. De todo.

Perante um presidente desbragado, concentrado no culto de si próprio, capaz de transformar um partido no reflexo da sua imagem e de arrastar atrás desse culto uma base (e muito mais do que isso) indefectível, capaz de fazer eleger uma congressista assumidamente fã de teorias da conspiração, os democratas optaram por um candidato seguro, saído do aparelho, que não representava uma rutura, ali bem colocado num centrão que, julgavam, iria agradar a todos os milhões de indecisos que, em princípio, estão mais no do espectro partidário. Talvez a América precise de disrupção. Talvez os democratas devessem ter ousado a sua própria disrupção. Terão perdido os hispânicos, não se sabia, à hora a que se escreviam estas linhas, o que teria acontecido com a vaga jovem que os democratas diziam ver, essa que alinhava sobretudo atrás da dita disrupção, progressista, convenientemente arrumada em nome do aparelho e que nem a presença de uma mulher negra e filha de imigrantes no "ticket" conseguiu resgatar.

Ou então é tudo ao contrário e o que falta contar dos votos por correio vai ser surpreendente. Se for como as sondagens, não será surpreendente: as previsões estarão simplesmente erradas. Ou não. Falta saber mesmo o que raio querem dizer aquelas tarjas no topo das páginas dos jornais americanos dando a superioridade a Biden nos votos do colégio eleitoral. Uma resposta pode demorar alguns dias.

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