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Hoje é Dia D: América vai a votos mas o presidente ainda há de demorar

Hoje é Dia D: América vai a votos mas o presidente ainda há de demorar

Democrata Joe Biden tem vantagem maior sobre Trump do que Hillary tinha em 2016. Número de indecisos também é menor.

As previsões apontam-no e de forma clara: a América pode eleger hoje o presidente mais velho de sempre na sua história. Joe Biden, democrata, que faz 78 anos no próximo dia 20, mantém-se como forte favorito, com as sondagens a darem-lhe 85% de hipótese de vitória, contra apenas 15% de Donald Trump, republicano, 74 anos.

O "Dia D" é hoje. Mas, assim como esse longínquo 6 de junho de 1944 só marcou o início da viragem da II Guerra para o lado dos Aliados, e não o fim do conflito com os nazis, que só chegou a 8 de maio do ano seguinte, também o dia das eleições americanas só vai marcar o princípio do fim do ato eleitoral. Porquê? Porque a conclusão da votação vai demorar dias, ou mesmo semanas, devido ao atraso na contagem dos votos antecipados, que este ano já bateram um recorde (ler ao lado). Nada disto será verdade num caso: se houver uma enxurrada de votos num só candidato - mas nisso, ninguém se atreve a apostar.

Trump consistentemente atrás

Aparentemente, a possibilidade de Trump ganhar é hoje menor do que a que tinha em 2016, quando foi coroado de surpresa como 45.º presidente norte-americano. Aí, o modelo de previsão de sondagens do site Five Thirty Eight dava a Trump 29% de probabilidades de vitória, uma percentagem que este ano se limita a 10%. Há quatro anos, a democrata Hillary Clinton tinha 3,8% de vantagem nos estudos de opinião, mas essa margem caiu para apenas dois pontos, a candidata viu-se atolada na margem de erro e perdeu a eleição. A surpresa pode repetir-se? Obviamente. Mas seria uma surpresa, se é que isso é possível, ainda maior: hoje, a vantagem de Biden sobre Trump pesa mais, são quase sete pontos percentuais (média nacional do site Real Clear Politics sobre dez sondagens). Além disso, o número de indecisos é mais reduzido: em 2016, havia um bloco de 12% de hesitantes, mas hoje será somente uma fatia magra de 5%.

Assim, por onde passam as opções da vitória Trump? Por 10 estados de referência onde ainda nada está decidido (ver infografia), mas onde em muitos deles Biden vai à frente nas intenções. Veja-se a Pensilvânia (vale 20 votos no Colégio Eleitoral). Se Biden ganhar aí, as suas hipóteses de ser presidente sobem para 19 em 20, segundo o modelo estatístico do Five Thirty Eight. Se Trump surpreender e ganhar esse estado operário, passa a favorito com cinco opções em seis de vitória. O mesmo sucede no Wisconsin, Michigan, Minnesota ou Nevada.

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Uma vitória de Trump passará sempre por um caminho estreito e pelo imprevisto. Primeiro, o milionário republicano precisa da Florida: o seu estado-fetiche vale 29 votos eleitorais, mas agora, e há muito, tende para o seu rival Biden. Depois, Trump precisa de garantir a vitória onde os republicanos vencem historicamente (Texas, Iowa, Ohio, que hoje se mantêm indefinidos) e tem de ganhar territórios indecisos como a Geórgia e a Carolina do Norte. Mas ainda precisa de mais e para completar a soma mínima de 270 votos no Colégio Eleitoral, tem duas alternativas: repetir o caminho de 2016 e ganhar alguns estados do chamado cinturão industrial (Pensilvânia, Michigan, Wisconsin e o Minnesota) ou surpreender no Oeste (Arizona, Nevada, Novo México, Colorado).

Nenhum destes caminhos é fácil e por isso o forte favorito é Biden. Em rigor, o democrata, que será previsivelmente um presidente de transição e não de transformação, fazendo a ponte para a nova geração de líderes (a sua vice é Kamala Harris; a corrida para 2024 também já vai começar), só precisa que hoje não aconteça nada de anormal.

polarização e reclamação

Mas uma coisa parece ser certa, Trump irá sempre contestar a eleição. E, se vir que está a perder, vai clamar, como já previamente clamou, que houve fraude nos votos por correio, preferencialmente num qualquer estado com governador republicano, como Florida, Ohio, Geórgia ou Arizona, e pedirá aos governadores que não certifiquem votos até que os "boletins fraudulentos" sejam eliminados.

Nas eleições mais polarizadas de sempre, o resultado terá consequências durante décadas - a democracia global e o progresso ocidental, as alianças transatlânticas, as relações entre superpotências e a emergência climática, tudo isto, e não apenas a política doméstica americana, está em jogo. Internamente, o próximo presidente definirá a agenda para a luta contra a covid-19 , que os EUA estão a perder, sendo o país mais castigado pela pandemia do coronavírus, assim como o combate pela justiça racial, igualdade de géneros e distribuição justa de riqueza.

PERGUNTA E RESPOSTA

Quando saberemos os resultados das eleições?

Desengane-se quem espera uma noite eleitoral emocionante. Devido à situação de pandemia, cerca de 100 milhões dos mais de 150 milhões de eleitores votaram antecipadamente - uns presencialmente, outros por correio - o que atrasará o escrutínio, não horas, mas dias.

A votação por correspondência pode gerar fraude?

O risco é mínimo. O sistema pode apenas registar atrasos e extravio. No caso dos atrasos, em alguns estados não é um problema, porque está autorizada na lei a contagem até alguns dias após o dia da votação, casos da Pensilvânia e Carolina do Norte, desde que o sobrescrito tenha carimbo do dia 3 ou anterior.

A eleição poderá ter de ser decidida pelo Supremo?

A hipótese é real, pois Trump ameaça recorrer se o resultado não lhe agradar. Em 2000, o Supremo Tribunal validou a paragem da contagem de votos na Florida, decidindo 36 dias depois a vitória para George W. Bush (republicano), com a vantagem de um voto, sobre Al Gore (democrata).

Donald Trump e Joe Biden são candidatos?

A Comissão Eleitoral Federal regista 1225 inscritos, quase todos solitários limitadas a um estado. O veterano, Jerry Leon Carrol, aparece em todas desde 1980. A candidatura mais próxima dos grandes é a do Partido Libertário (Jo Jorgensen, 63 anos, professora de Psicologia), a terceira força política. O antecessor, Gary Johnson, obteve 3% do voto popular em 2016. Hoje, o rapper Kanye West, ex-apoiante de Trump, ameaça tirar alguns votos negros a Biden em 16 estados.

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