Eleições EUA

O debate: Trump instiga caos, insultos, atropelos e Biden chama-lhe palhaço

O debate: Trump instiga caos, insultos, atropelos e Biden chama-lhe palhaço

Presidente republicano não condena supremacistas brancos, promove nazis Proud Boys, ameaça que haverá "fraude e desgraça" e não diz se aceita o resultado eleitoral. Candidato democrata pede "calma" e diz que o país está "mais fraco, mais doente, mais pobre, mais dividido". É unânime: foi um circo descontrolado. E dos piores debates da história.

A avaliação do primeiro debate presidencial às eleições americanas tem que ser feita pela negativa. Assim, em vez de se perguntar quem ganhou o confronto - a CNN diz que foi o democrata Joe Biden e por larga margem -, é imperioso perguntar quem é que o perdeu. A resposta é unânime: o povo americano que vai votar a 3 de novembro na eleição mais polarizada de sempre, 200 milhões de eleitores em que 11% estão ainda indecisos, o povo americano é que perdeu neste debate. E isso é irrefutável.

Assim que terminou o encontro televisivo de 90 minutos - para um europeu, foi como um jogo de futebol bizarro e brutal: sem balizas, sem bola, só covas e caos num batatal -, o painel de jornalistas, correspondentes e comentadores da CNN, que incluía o republicano Rick Santorum, estava estupefacto. E não escondeu o assombro.

CNN em choque condena o caos

As primeiras reações das nove pessoas presentes no estúdio da CNN, o canal noticioso liberal que tem uma audiência média de 1,6 milhões (a concorrente conservadora Fox News tem 2,8 milhões), essas reações a quente não mentem. Wolf Blitzer: "Foi o debate mais caótico, mais assustador que já vi, um embaraço para a América". Jake Tapper: "Que confusão, que desgraça, que rudeza, um terror". Dana Bash: "Foi péssima "reality TV", o presidente bateu num novo fundo, olhem, foi um "shitshow" [espectáculo ordinário]". Anderson Cooper: "Haverá outro debate? Estou perplexo, nunca vimos nada tão desavergonhado". David Axelroad: "Trump acabou com a sua presidência neste debate, acabou, foi mau de mais". Abby Phillip: "Um completo desastre, houve falta de decência, o presidente estava muito, muito agitado". Van Jones: "Foi pior do que um circo. Retive três coisas: o presidente não condenou a supremacia branca e promoveu o grupo nazi Proud Boys" (e depois repetiu a exata frase mais duas vezes, com grande ênfase dramático). Gloria Borger: "Foi monstruoso, assustador, é um novo fundo na nossa política". Rick Santorum: "Sou republicano, apoio o presidente mas tenho que admitir que ele esteve mal, entrou muito quente, exagerou, o debate não funcionou para Trump, não foi uma figura poderosa e isso não se pode esconder".

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Com a culpa geral atirada diretamente para o presidente em exercício - "Trump afundou o debate em disputas acirradas", titulava o "Washington Post" minutos depois; "Deboche e desenganos de Trump atiram debate para o caos", titulava o "New York Times" -, a CNN diz que Biden ganhou a disputa. E, debaixo da balbúrdia, os números são, apesar de tudo, muito claros: o seu painel de espectadores, que incluía 39 democratas, 25 republicanos e 36 indecisos, deu a Biden 60 pontos e a Trump 28. Antes do debate, os números da expectativa eram muito apertados e mais próximos dos das sondagens: Biden 56; Trump 43.

Moderador Chris Wallace não teve vida fácil

O debate, o primeiro de três antes da eleição de 3 de novembro, decorreu das 21 às 22.30 horas (2 às 3.30 horas da madrugada em Portugal continental), no Samson Pavilion, em Cleveland, Ohio, um estado tradicionalmente flutuante que regista hoje um empate virtual nas intenções de voto: Biden 52; Trump 48. Houve público presente, inferior a 80 pessoas, todas socialmente distanciadas, todas com máscaras faciais, incluindo as mulheres dos candidatos, e toda a audiência se comportou exemplarmente, isto é, não se ouviu um pio enquanto a farsa política e a cacofonia se desenrolavam no palco, surreais.

Vida (muito) difícil teve o moderador Chris Wallace, jornalista da Fox News, que levantou a voz várias vezes, mandou calar Trump inúmeras outras e lhe pediu "respeito pelas regras com que tinha concordado" - a dado passo Trump, que esteve sempre exaltado e também interrompia as perguntas do moderador, disse "mas eu vou debater contigo, Chris?", ao que ele respondeu, levemente exasperado mas taxativo, "não, não vai". O seu desempenho, como o de um árbitro que perde cedo o controle do jogo e desata a distribuir cartões amarelos à esquerda e à direita, não teve nota positiva.

Biden falou diretamente para os eleitores: "Votem, votem, votem!"

Houve três frases muitas vezes repetidas por Joe Biden, o democrata de 77 anos que ocupa cargos governamentais há quase meio século e serviu dois mandatos como vice de Barack Obama (2008-2016). Primeira: "Isso não é verdade". Segunda: "Isso não é verdade". Terceira: "Oh homem, mas tu calas-te?". E houve uma palavra que também disse e redisse três ou quatro vezes, primeiro entre dentes, com a voz baixa a debandar, mas depois perfeitamente audível e com exclamação: "Palhaço!". Reação curiosa de um votante de Trump em 2016 que estava no painel da CNN e que disse que ver o debate "foi como assistir a um desastre de comboio": "Trump esteve mal, admito, insultou a família e o filho de Biden por isso compreendo quando ele lhe chamou palhaço. Mas se o sapato, o sapato de palhaço, lhe serve, ele tem que o calçar", disse, visivelmente satisfeito com a piada que acabara de fazer.

Mas a reação mais frequente de Biden foi facial: de todas as vezes que Trump falava - e mentia ou era inexato -, o democrata só sorria a abanar a cabeça de incredulidade. Levava vestido um fato azul escuro, com gravata riscada a azul e branco, as cores do seu moderado partido, e manteve muito mais calma do que o oponente.

Pontos fortes de Biden: quando disse "votem, votem, votem, isto está nas vossas mãos"; quando falou diretamente para a câmara e, assim, diretamente para os eletores/espectadores, numa postura claramente pré-definida e que funcionou com a sua empatia; quando disse, e muito claramente, instigado por Trump, que respeitava a "lei e a ordem e a justiça"; quando disse que aceitaria os resultados da eleição "porque isso é a democracia"; e quando teve que defender a honra do filho Hunter, porque Trump lançou o seu nome na lama e disse, mentindo, que o filho de Biden tinha sido dispensado do exército com desonra, além de que consumia drogas - "sim, o meu filho teve esse problema, como muitos americanos, mas lutou, e lutou muito, e já se livrou desse mal; temos muito orgulho nele", disse Biden, claramente emocionado, num segmento que os comentadores concordam que lhe rendeu pontos junto do eleitorado feminino.

Trump endossa supremacistas Proud Boys, que exultam

Trump, de gravata riscada a azul e vermelho, que manteve sempre a cara fechada, como se estivesse ressentido, raras vezes sorrindo, tenso, Trump nunca respeitou o decoro, é como os seus tweets, mas ao vivo e a cores e a berrar. Foi esta a definição do jornal digital "Huffington Post" assim que acabou o debate, numa manchete aberta a todo o ecrã: "Trump mente, engana, ladra, intimida, assedia a sério. Basicamente, o presidente sequestrou o primeiro debate presidencial".

Teve três pontos claramente baixos, que ainda fazem as manchetes. Primeiro: o presidente Trump recusou-se a denunciar categoricamente os supremacistas brancos e disse, falsamente, que a violência extremista "não é um problema da direita". Apertado pelo moderador que lhe pedia uma resposta clara sobre se condenava ou não a violência das supremacias brancas na América, que já saíram às ruas armados e já mataram manifestantes, acabou por promover o grupo extremista de ultra-direita e ideologia nazi Proud Boys, dizendo-lhes "fiquem atrás, fiquem parados", frase que os comentadores liberais, do centro e da esquerda continuam ainda a repetir, escandalizados. Os Proud Boys exultaram imediatamente no Twitter: "Trump basicamente disse que os podemos fod**! Estou tão feliz!", tweetou um Proud Boy proeminente. Rick Santorum não conseguiu não penalizar Trump: "Ele devia ter condenado a supremacia branca. Foi um erro tremendo". O mesmo fez, noutro canal, Chris Christie, ex-governador de Nova Jersey, republicano e que ajudou Trump a preparar-se para o debate: "A cabeça dele esteve sempre demasiado quente".

Segundo ponto baixo: continuou, e até acentuou, os seus ataques enganosos à fiabilidade da votação por correspondência, dizendo, e ameaçando, que "vai haver fraude e vai ser uma desgraça" nas eleições e que os resultados "podem demorar semanas ou meses ou mais" a apurar.

Terceiro: recusou prometer que não vai declarar vitória preventiva, isto é, antes de todos os votos, incluindo os votos por correspondência que serão contados para lá do dia eleitoral, estarem realmente todos apurados.

Vulcânico, com táticas ao estilo bulldozer, cheio de impulsos destrutivos, parecendo sempre mais empenhado em insultar ou atropelar o seu opositor do que em expor as ideias do seu programa de governação, Trump também confirmou que está a contar com o Supremo Tribunal, instituição para que está a nomear, apressadamente, uma terceira juíza conservadora da sua confiança, Amy Coney Barrett, e que vai desequilibrar o Tribunal de nove juízes vitalícios, para resolver as mais do que certas contendas legais da eleição.

Sobre os seus escandalosos impostos - em 10 anos pagou zero impostos e em 2016 e 2017 liquidou a quantia irrisória de 750 dólares, conforme revelou no domingo passado o "New York Times", numa reportagem explosiva com ecos em todo o mundo - e quando lhe perguntaram se pagou efetivamente só 750 dólares ao IRS, tornou a mentir: "Não. Paguei milhões, milhões!", respondeu com alucinação.

Ainda faltam três debates e o próximo é com os vices

Os próximos debates Trump/Biden são a 15 e a 22 de outubro. Mas antes, já no dia 7 de outubro, ainda vão debater os candidatos a vice-presidente: o republicano e evangélico Mike Pence, que procura a reeleição, e Kamala Harris, a senadora negra democrata que, se ganhar, será a primeira mulher a governar na Casa Branca.

Todos esperam que o tom se eleve, o que não será difícl, dado o abismo histórico em que o primeiro debate caiu, e se cumpra a mínima educação pela democracia, porque a primeira amostra foi muito má pedagogia e um péssimo entretenimento. Ou foi mesmo mais e vai deixar sequelas e stress pós-traumático - como disse o jornalista Jake Tapper, citando uma mensagem aflita que lhe enviou em direto uma amiga que via o debate em Kansas City e que ele se viu compungido a ler: "Estava a seguir tudo com a minha filha de seis anos, mas passada meia hora tive que a ir deitar, a miúda estava aterrorizada, não vai conseguir dormir".

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