Eleições EUA

Uma demora filha de uma América rachada e da pandemia

Uma demora filha de uma América rachada e da pandemia

Contagens do dia favoreceram as contas democratas.

Às 23 horas desta quinta-feira, era oficial: ainda não havia vencedor nas presidenciais norte-americanas. Porque, como nunca, a eleição ficou pendurada em cinco "swing states", daqueles que não permitem certeza e causam os sucessivos desaires dos institutos de sondagens, porquanto são, digamos, pendulares, para não dizer camaleónicos.

Tanto são azuis como vermelhos como, e parece desta vez ser o caso, são sobretudo azuis e vermelhos, ou vermelhos e azuis, na mesma exata proporção. Na esperança de que não tenhamos acordado com uma verdadeira notícia da América que injustifique estas linhas, tente-se aqui perceber porquê.

Mas antes, faça-se um desvio pelas campanhas dos oponentes, num dia sobretudo atarefado nos tribunais estaduais - com a equipa do presidente republicano que quer a reeleição, Donald Trump, a interpor um sem-número de ações e a vê-las quase todas recusadas (ler texto na página seguinte) - e nas imediações dos centros de contagem de votos, com protestos contidos do campo trumpista.

O democrata Joe Biden continuava a liderar a parada, com 253 ou 264 votos no Colégio Eleitoral a que compete eleger o presidente, dependendo de as fontes escolhidas por cada media norte-americano para considerar vitórias considerarem ou não o Arizona como fechado (ler caixa ao lado). E via a lentíssima evolução das contas sorrir-lhe, aproximando-o do líder republicano na disputada Pensilvânia e na Geórgia ou afastando-o um pouco mais dele nos estados com que conta para arrumar a eleição de uma vez, o Arizona e o Nevada, cuja soma de 17 votos lhe podem garantir a maioria de 270 de que precisa (o Colégio Eleitoral tem 538).

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O candidato azul falou a meio da tarde. Pediu novamente "calma" e paciência, defendeu que "cada voto conta" e reafirmou que confia que, no final da contagem, sairá vencedor. Desde a campanha que Trump vem lançando o anátema sobre os votos por correspondência, que diz, sem provas disso na história do sistema eleitoral americano, favorecerem a fraude. Quer agora anular a sua contagem e dirige uma campanha nas redes sociais garantindo que os votos contados depois do dia da eleição são inválidos. O Twitter assinalou ontem praticamente todas as publicações do presidente, avisando que continham afirmações contestáveis.

Os culpados da demora

Ora, esses votos que Trump abomina são precisamente aqueles que explicam esta demora na determinação de um final na telenovela em que estas presidenciais se transformaram. Foram mais de 100 milhões de votos antecipados e por correspondência, com que os norte-americanos quiseram fintar os riscos de contágio em era pandémica.

Esses votos e o facto de os EUA estarem hoje mais polarizados do que nunca, o que imprimiu uma mobilização sem precedentes (ambos os candidatos somam recordes de votos na história das presidenciais), atrasam tudo. Ainda falta, contudo, umas boas semanas para se bater este recorde: em 2000, o vencedor demorou 36 dias a ser declarado. A ver se é esta sexta-feira.

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