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Caos em Madrid deixou cadáver 34 horas em casa de janela aberta à espera de um médico

Caos em Madrid deixou cadáver 34 horas em casa de janela aberta à espera de um médico

Carmen morreu este sábado aos 82 anos, em Espanha, mas o seu corpo ficou deitado na cama 34 horas, à espera que o óbito fosse declarado. A família deixou as janelas abertas para o corpo se conservar com o frio, durante a tempestade Filomena, enquanto ligou uma dezena de vezes para o 112.

Era meio-dia de sábado, quando Carmen morreu na sua casa em Parla, na sequência de um cancro terminal no pancreas. Lá fora a tempestade Filomena fazia estragos e paralisava Madrid. Só no dia seguinte à noite é que o seu óbito foi finalmente declarado pelo médico para poder ser retirado de casa e ir a enterrar.

"Para conservar a minha mãe, não ligamos o aquecimento... Imagine, com o frio que está. Ela continua no seu quarto, tombada com o seu roupão, com as janelas abertas. E nós a velá-la, gelados, na sala ", contava o filho Gustavo, ao jornal espanhol "El Mundo", no domingo pelas 19:30 horas. "Cinco minutos" antes, tinha ligado pela 10ª vez para o Summa 112, o Serviço de Urgência Médica da Comunidade de Madrid, diz.

À partida repentina e inesperada da mãe durante o banho, quando pouco antes parecia bem, seguiu-se um rol de acontecimentos inusitados que mais lhe pareceram "um pesadelo". O corpo de Carmen permaneceu na sua cama por 34 horas, conservando-se graças à brisa gelada da tempestade que assolava a região.

Numa tentativa desesperada pelo levantamento do corpo da casa, o filho de Carmen chegou a contactar uma funerária para ver se "nesta situação extraordinária podiam adotar uma solução extraordinária". Os agentes funerários acudiram à casa, mas foram embora de mãos vazias 30 minutos depois, sem autorização do Summa 112 para que o corpo fosse levantado e o óbito declarado posteriormente.

A "descoordenação absoluta" do serviço, que a cada chamada dava uma resposta diferente, deixou a família em desespero, segundo Gustavo. Ao final do dia de sábado, conta que lhe foi pedido que não telefonasse mais. "O coordenador tinha dito que os mortos em casa já não eram uma urgência", recorda Gustavo àquele jornal.

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Contudo, o que mais aborreceu Gustavo e a mulher Ana tinha sido uma resposta logo às 12.30 horas de sábado. "Perguntei-lhes se não havia um médico em toda Parla que pudesse atestar a morte. Responderam que sim, mas que não tinham acesso à nossa casa por causa da neve. A polícia local, à qual tínhamos ligado antes, tinha viaturas preparadas e ofereceu-nos a possibilidade de transportar um médico caso encontrássemos algum. Quando propus essa solução [ao 112], desligaram-me na cara ", recordou Ana, indignada.

O óbito de Carmen só foi declarado pelas 21.30 horas de domingo.

De acordo com o Summa 112, ao "El Mundo", este serviço atendeu mais de 8900 chamadas de urgência desde sábado, tendo mobilizado recursos para os casos prioritários, como de pessoas a sofrer acidentes vasculares cerebrais, em paragem cardiorrespiratória ou de mulheres para dar à luz.

"O que não se pôde fazer no sábado foi acudir a todas as casas a certificar as mortes por causas naturais por doença prolongada, como é o caso que aqui se apresenta, do mesmo modo que também não puderam responder às funerárias", disse fonte daquele organismo.

No domingo, "foi feito um grande esforço" para que os médicos pudessem chegar às casas dos óbitos pendentes, nomeadamente a pé, para a sua certificação, segundo o Summa 112.

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