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Catalunha prefere ceder soberania a Bruxelas do que a Madrid

Catalunha prefere ceder soberania a Bruxelas do que a Madrid

O ministro da Economia e do Conhecimento do governo regional da Catalunha defende que a região autónoma mais facilmente cederia soberania à União Europeia do que a Espanha, ilustrando o diferendo político que opõe Barcelona e Madrid.

"O que defendo é um forte federalismo europeu. Mesmo que soe como um paradoxo, estamos dispostos a ceder uma larga fatia de soberania à União Europeia. E se se vai ceder soberania a Bruxelas, porque não cedê-la a Madrid? Pode perguntar-se. Porque confiamos mais em Bruxelas que em Madrid, porque a Europa foi construída com base no respeito pela diferença", afirmou Andreu Mas-Colell, de 70 anos, durante um encontro com jornalistas estrangeiros em Barcelona.

O governo regional da Catalunha está empenhado na realização em 09 de novembro de uma "consulta popular" não vinculativa sobre a existência de um Estado catalão e sobre a independência desse Estado, enfrentando a oposição determinada do governo central espanhol.

"Não me defino como independentista, defino-me como soberanista. Defendo que a Catalunha é uma entidade política que tem direito a determinar o seu destino qualquer que ele seja", afirma o ministro.

Andreu Mas-Colell, economista, justifica o desejo de soberania da Catalunha com o que considera o espartilho financeiro e decisório cada vez mais apertado a que a região está a ser sujeita pela "política de recentralização" que está ser aplicada pelo governo espanhol liderado pelo Partido Popular (PP).

"Uma Catalunha com governo próprio, formulo assim deliberadamente (sem referência a independência), na União Europeia seria mais bem gerida que a atual economia espanhola e teria oportunidades mais substanciais de crescimento que na atual situação", afirma o responsável pela gestão económica catalã.

"Não estou a dizer que Espanha tem uma incapacidade congénita de crescimento elevado, mas sim que o modelo centralizador da economia aplicado pelo PP é um peso sobre a economia espanhola e consequentemente sobre a economia da Catalunha", adianta.

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Com cerca de 7,5 milhões de habitantes a Catalunha representa 16% da população de Espanha, está na origem de cerca de 25% do total das exportações espanholas e gera cerca de 20% do PIB, situando-se em quarto lugar entre as regiões mais ricas de Espanha, depois do País Basco, Navarra e região de Madrid.

"Aceitamos que se temos um nível de rendimento superior a outras regiões de Espanha devemos contribuir generosamente. Damos muita solidariedade em termos de contribuição financeira, o que queremos é receber solidariedade de volta, na moeda do respeito e do governo próprio".

E o ministro deixa a porta aberta à negociação com Madrid, mas sublinhando que a iniciativa teria de partir do governo central, que teria que garantir o respeito pelas diferenças da região.

A contribuição da Catalunha para o governo central está em cerca de 8% do PIB da região e Mas-Colell considera que uma percentagem razoável seria "talvez metade disso, algo mais em linha com os padrões europeus, mas isso seria uma das questões a negociar. Se a contribuição tivesse de ser mais alta em troca de outras coisas, pessoalmente penso que seria de considerar", adianta.

O responsável pela pasta da economia aponta "várias queixas substanciais", por exemplo em termos de infraestruturas, como a falta de autorização de Madrid para a construção de um ramal ferroviário de apenas seis quilómetros para ligação ao porto de Barcelona.

"As regiões autónomas podem fazer muito pouco sem pedir a permissão de Madrid. Eu não tenho virtualmente nenhum poder sobre a economia da Catalunha. O governo central produz grande quantidade de legislação que controla pormenores ínfimos do funcionamento das economias regionais. Não controlamos as infraestruturas, não controlamos a gestão da água, por exemplo", diz ainda o ministro.

Mas Andreu Mas-Colell faz questão de afirmar que não tem "qualquer preocupação relativa ao impacto do diferendo sobre a independência na economia".

O ministro considerou "um bom estudo, uma boa base de trabalho", um relatório da Câmara de Comércio de Barcelona que conclui que uma hipotética independência da Catalunha resultaria numa redução de fluxos comerciais com o resto de Espanha que provocaria uma quebra de pelo menos 1,1% do PIB catalão num período entre três e cinco anos, havendo alguma probabilidade de a quebra atingir os 2,3%.

"Esta questão não depende de um crescimento ou de uma quebra de um por cento na economia. O movimento pela independência não começou nem é liderado pelo governo. Podemos dizer que o governo regional está a aproveitar a onda e a tentar canalizar a questão política, mas a raiz da questão está na sociedade", afirma.

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