Argélia

Chaima foi violada, esfaqueada e queimada pelo mesmo homem que a tinha violado em 2016

Chaima foi violada, esfaqueada e queimada pelo mesmo homem que a tinha violado em 2016

A violação e assassinato de uma mulher de 19 anos na Argélia, esta semana, tem gerado revolta contra a violência de género no país e apelos para o regresso da pena de morte.

O corpo da jovem, identificada como Chaima, foi encontrado no início de outubro num posto de gasolina deserto em Thenia, 80 quilómetros a leste da capital, Argel. A vítima foi espancada, violada e queimada viva, informaram os meios de comunicação social locais.

O suspeito, que terá confessado o crime, é acusado de "violação e homicídio voluntário com premeditação e emboscada, com recurso a tortura".

A mãe de Chaima disse que o homem era um conhecido da família, contra quem a jovem havia anteriormente apresentado acusações de violação em 2016.

O assassinato desencadeou uma onda de indignação nas redes sociais da Argélia, onde várias pessoas condenam o crime "hediondo" e exigem justiça, com muitas delas a pedir o regresso da pena de morte, sob moratória no país desde 1993.

Numa mensagem partilhada nas redes sociais pode ler-se: "Eu sou a Chaima, fui violada em 2016 e tive a coragem de apresentar queixa numa sociedade conservadora. Ainda sou a Chaima, estamos em 2020 e fui novamente violada pelo mesmo violador, que me apunhalou e queimou. #IAmChaima".

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Quebrar o "silêncio cúmplice"

O Coletivo de Mulheres Livres e Independentes de Bejaia, uma cidade na costa nordeste da Argélia, disse que o assassinato de Chaima "se soma à longa lista de feminicídios, que continua a crescer diante do silêncio cúmplice, da justificativa da violência e da ausência de medidas reais".

Para "quebrar o silêncio", vários coletivos feministas de todo o país organizaram manifestações esta quinta-feira contra o feminicídio, o assassinato de mulheres e meninas.

Em Argel, o grupo Mulheres Argelinas pela Mudança para a Igualdade organizou uma manifestação para "denunciar os crimes hediondos" que levaram à morte de Chaima e às 38 mulheres mortas este ano.

"Estamos zangadas pelas nossas irmãs assassinadas" e "as que ficam caladas são igualmente responsáveis", gritaram cerca de 100 manifestantes que se reuniram no centro de Argel antes de serem dispersos pela polícia.

Uma mulher segurava um cartaz com uma frase em francês: "Sonhamos com um país onde as mulheres que falam sobre violação são mais ouvidas do que os homens que falam sobre o véu".

Na cidade de Oran, no noroeste, os protestos foram rapidamente encerrados pela polícia. Cerca de 20 pessoas foram detidas, incluindo o ativista Kaddour Chouicha, presidente da secção de Oran da Liga dos Direitos Humanos, disse o grupo de direitos dos prisioneiros CNLD.

Uns pedem a pena de morte, outros pedem mudança da lei

Num vídeo que circulou nas redes sociais e que foi captado por emissoras de TV locais, a mãe de Chaima dirigiu-se diretamente ao presidente da Argélia, Abdelmadjid Tebboune, exigindo a execução do autor do crime.

Muitos argelinos também recorreram às redes sociais para apoiar o regresso da pena de morte. "A execução deve ser aplicada ao assassino, para ser um exemplo para todos aqueles que pensam em fazer a mesma coisa", escreveu um utilizador do Twitter.

"Devemos abrir o debate sobre a pena de morte, o monstro que a matou não tem lugar na sociedade nem na prisão", disse outro.

Mas outras pessoas no país rejeitaram a execução como a melhor forma de deter o feminicídio.

Femicídios Argélia, grupo que acompanha esses homicídios, afirmou: "Não é pela pena de morte que lhe (Chaima) daremos justiça, é a lei que deve ser mudada e aplicada".

Os ativistas contabilizam 38 feminicídios na Argélia até agora neste ano. Foram registados 60 em 2019, embora o facto de haver tantos casos não relatados ou não confirmados faça com que o número real seja "muito maior".

Hassina Oussedik, diretora da Amnistia Internacional na Argélia, disse à AFP que o país precisa de "mudar as mentalidades e o sistema judicial para o atendimento psicológico e jurídico das vítimas, lançar campanhas nacionais de sensibilização, abrir abrigos e formar as várias instituições".

"A pena de morte não é um impedimento. É discriminatório e não protege os mais vulneráveis", concluiu.

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