Direitos Humanos

China. Várias mulheres vítimas de "sistemáticas violações" em campos de concentração

China. Várias mulheres vítimas de "sistemáticas violações" em campos de concentração

Várias mulheres de etnia muçulmana uigure, detidas nos campos de reeducação da província chinesa de Xinjiang, têm sido alvo de violações, agressões e torturas, segundo um relatório baseado em depoimentos das vítimas. Os Estados Unidos e o Reino Unido dizem condenar as "atrocidades" praticadas na perseguição às minorias pelo Governo chinês.

Uma investigação conduzida pela BBC dá conta de "sistemáticas violações" e abusos sexuais de reclusas dos campos de reeducação chineses. De acordo com os testemunhos recolhidos, os atos acontecem pelas mãos de guardas e policiais.

Tursunay Ziawudun, uma ex-reclusa dos campos de uigures, conta que os homens, "com máscaras e sem uniforme policial que os identificasse", apareciam todas as noites nas celas e selecionavam as mulheres que queriam. As vítimas eram levadas para a "sala negra", desprovida de câmaras de segurança. Ziawudun, que esteve por nove meses no campo de concentração, conta ter sido várias vezes conduzida para essa sala e violada e torturada por um grupo de dois ou três homens.

Segundo a muçulmana de 42 anos, foi detida em 2018 após o seu marido ter ido trabalhar para o Cazaquistão. As autoridades consideraram que "precisava de mais educação".

Uma vez no campo de concentração, as reclusas eram forçadas a usar um DIU (dispositivo intrauterino) ou a serem esterilizadas. Além disso, eram sujeitas a injeções de 15 em 15 dias e a exames "inexplicáveis".

De acordo com Ziawudun, as torturas começaram dois meses após a detenção e foram motivadas pela recusa em responder sobre as atividades do marido no Cazaquistão. Só depois é que começaram as violações, que se seguiram a choques elétricos nos genitais.

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Os homens chineses "pagavam para ter relações sexuais com as prisioneiras mais bonitas", conta Gulzira Auelkhan, uma mulher cazaque que vivia em Xinjiang e que ficou detida por 18 meses.

"O meu trabalho era despir as mulheres e prender-lhes as mãos para que não se mexessem", disse Auelkhan. Depois disso, ficava do lado de fora da "sala negra" enquanto os violadores ficavam junto das vítimas e, no final, levava as mulheres para tomarem banho.

Os campos de reeducação de uigures têm também salas de aula. Qelbinur Sedik, professora de chinês e coagida a dar aulas aos detidos, partilha com a BBC algumas das histórias contadas por uma guarda: "A violação acaba por se tornar uma cultura. Eram violações coletivas e os polícias chineses não só violavam como as eletrocutavam". Além disso, explica ainda que ouviu falar da existência de um bastão elétrico. Segundo Sedik, havia quatro tipos de choques elétricos, "a cadeira, a luva, o capacete e a violação com uma vara".

Um antigo guarda do campo de reeducação que, por opção, se manteve em anonimato, corrobora alguns dos depoimentos. "Uma vez, estávamos a levar as pessoas presas para o campo de concentração e vi todos a serem forçados a memorizar aqueles livros [sobre Xi Jinping]. Eles sentaram-se horas a tentar memorizar o texto, todos tinham um livro nas mãos", afirma. Se os detidos não memorizassem as passagens do livro podiam ficar sem comida.

Os países ocidentais condenam as atrocidades nestes campos de reeducação. A administração de Joe Biden disse estar "profundamente preocupada" com as "atrocidades" praticadas em Xinjiang.

No Reino Unido, o responsável pelas relações do país com a Ásia, Nigel Adams, afirmou, no Parlamento, que os relatos evidenciam "atos claramente malignos". "Qualquer pessoa que tenha visto a reportagem da BBC não pode deixar de ficar comovida e angustiada", acrescentou.

Nus Ghani, membro do Parlamento britânico, apelou a Nigel Adams que não estreitasse "laços de qualquer tipo com a China, até que haja um inquérito judicial completo que investigue estes crimes".

A ministra dos Negócios Estrangeiros da Austrália, Marise Payne, também comentou os factos revelados pela investigação, afirmando que as Nações Unidas deviam ter acesso "imediato" à região.

De acordo com um estudo independente partilhado pela BBC, mais de um milhão de pessoas foram presas nos campos de concentração de uigures, que a China assume existirem para a reeducação dos uigures e outras minorias. Pequim recusa, inclusive, o termo "campos" e afirma tratarem-se de centros de formação profissional, destinados a dar emprego à população.

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