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Cimeira da Democracia criticada por responder a "interesses" dos EUA

Cimeira da Democracia criticada por responder a "interesses" dos EUA

Cimeira da Democracia reúne líderes de 110 países e territórios, mas está a ser alvo de várias críticas. EUA deixam China de fora, elevando a apreensão entre os dois países.

Além de reunir chefes de Estado e de Governo e líderes de organizações, a cimeira promovida pela administração Biden, que decorre em formato digital, também conta com representantes do setor privado e de organizações civis.

Defender a democracia, combater a corrupção e preservar os direitos humanos foram algumas das bandeiras que o atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, levantou durante a sua campanha eleitoral. Agora, concretiza as suas promessas numa cimeira internacional que pretende fazer frente às ambições expansionistas dos países autocráticos, em particular a China.

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Ainda antes de se ter iniciado, a cimeira já estava a ser alvo de alguma contestação. Os críticos do encontro questionam a eficácia que este poderá produzir no seio da comunidade internacional, e perguntam o que poderá ser atingido em apenas dois dias de uma reunião que decorre em formato virtual, além de denunciarem o teor abstrato dos objetivos colocados em cima da mesa, tal como em que se basearam os convites feitos.

"Interesses estratégicos"

O facto de não haver um critério claro para tomar a decisão de convidar ou não um determinado país, está a inundar de críticas negativas o encontro organizado pela administração do presidente democrata, sobretudo depois de terem sido incluídos países africanos que apresentam baixos valores de democracia, em deterioramento de outros com níveis mais elevados.

"A lista de convidados da Casa Branca afasta países como a Bolívia e a Serra Leoa, enquanto acolhe outros como o Iraque e o Paquistão com históricos democráticos muito piores. Esta situação abre a porta a críticas ao Governo dos EUA, que considerou a participação com base nos interesses estratégicos do país e não no compromisso com os princípios democráticos", frisou Anthony Faiola, num artigo de opinião do jornal norte-americano "The Washington Post".

Os EUA deixaram de fora alguns dos seus principais rivais, em particular a China, Rússia ou o Irão.

Em declarações ao jornal "The New York Times", Jean-Pierre Cabestan, cientista político da Universidade Batista de Hong Kong, considera que a posição tomada pelos EUA é uma forma do país se colocar "na defensiva, criando o que chamam de democracia ocidental".

Afastada da reunião, a China viu-se obrigada a defender o seu "sistema democrático" de partido único, liderado pelo autocrata mais poderoso do mundo.

No sábado, o Gabinete de Informação do Conselho de Estado da China divulgou um comunicado intitulado "China: Democracy That Works", onde salienta que a democracia é um valor comum da humanidade e um ideal que sempre foi respeitado pelo Partido Comunista da China (PCC) e povo chinês, tentando assim desvalorizar o impacto que a Cimeira da Democracia irá ter para o país.

Um dia depois, também o Ministério das Relações Externas da China divulgou outro relatório onde apontava duras críticas à política americana.

Tendo em conta o índice da "Freedom House", a China não é considerado um país democrático, mas outros estados que também não são estão a marcar presença na cimeira. É o caso da Nigéria ou da Libéria.

No entanto, o Partido Comunista chinês tem sido contestado internacionalmente por controlar os tribunais e censurar de forma desmesurada os media. Também tem vindo a suprimir a cultura e a língua tibetanas, além de restringir a liberdade religiosa e realizar uma vasta campanha de detenção em Xinjiang.

Para agudizar ainda mais a tensão com a China, Biden convidou Taiwan, ilha autónoma que os Estados Unidos não reconhecem como um país independente, mas que encaram como um modelo democrático face à China.

China e Taiwan vivem como dois territórios autónomos desde 1949, porém Pequim considera a ilha parte do seu território e já chegou a ameaçar a reunificação pela força.

Hungria de fora

Outra das presenças mais questionadas é da Polónia, que está a participar na cimeira ao contrário da Hungria, o único estado europeu a ser excluído.

Os dois países têm sido alvo de retaliações por parte da União Europeia devido às suas condutas consideradas pouco democráticas, sobretudo no que diz respeito a assuntos relacionados com os direitos humanos.

Ainda assim, no índice da "Freedom House", numa escala de 01 (menos livre) e 100 (mais livre), a Polónia consegue 82 pontos, enquanto a Hungria apenas alcança 69 pontos.

Também a Turquia, Cuba, Guatemala, Venezuela e os parceiros árabes tradicionais dos americanos (Egito, Arábia Saudita, Jordânia, Qatar ou os Emirados Árabes Unidos) constam igualmente na lista de países que ficaram de fora.

Dos estados da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), marcam presença Angola, Brasil, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e Moçambique não foram convidados.

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