Médio Oriente

Como funciona a "Cúpula de Ferro", o sistema israelita que interceta mísseis no ar

Como funciona a "Cúpula de Ferro", o sistema israelita que interceta mísseis no ar

Israelitas e palestinianos aceitaram, esta segunda-feira, um cessar-fogo, após um fim de semana de violência, que terminou com quase 30 vidas, 23 palestinianas e quatro israelitas.

Durante o conflito, Israel lançou pelo menos 350 ofensivas aéreas contra território palestiniano. Do lado de Gaza foram disparadas quase 700 "rockets", que causaram quatro mortos e centenas de feridos. O sistema de defesa antimíssil "Iron Dome" evitou males maiores para os israelitas, intercetando mais de duas centenas desses ataques.

O projeto "Iron Dome", ou "Cúpula de Ferro", em português, começou a ser desenvolvido em 2007. Após anos de testes, entrou ao serviço em março de 2011 e duas semanas depois passou na primeira prova ao abater um míssil. Este fim de semana, voltou a mostrar que poupa vidas.

O sistema "Cúpula de Ferro" é constituído por 10 baterias antimíssil, cada uma equipada com três ou quatro lançadores de mísseis intercetadores Tamir. Um sistema de radar deteta os foguetes disparados e um centro de Controlo de Batalha e de Armas, instalado num contentor, coordena a resposta. Por questões operacionais, válidas tanto em caso defensivo como ofensivo, as baterias são facilmente mudadas de local, em camiões.

A base da "Cúpula de de Ferro" é um radar de alta resolução que deteta disparos inimigos num raio de quatro a 75 quilómetros. Cada míssil Tamir cobre uma área de cerca de 155 quilómetros quadrados, segundo o fabricante, a empresa israelita Rafael Advanced Defense Systems (RADS).

O sistema calcula onde vão cair os "rockets" e ignora-os se a trajetória prevista aponta para uma zona despovoada. No caso de serem disparados em direção a áreas habitacionais, o sistema ordena o disparo de um intercetador Tamir. Um projétil de 160 mm sulca os céus a cerca de 3100 quilómetros por horas (2,5 vezes a velocidade do som), guiado pelas coordenadas calculadas por um algoritmo através dos dados obtidos por radar.

O míssil Tamir tem instalado um sistema eletro-ótico que lhe permite intercetar de forma mais precisa o míssil adversário. Um fusível de proximidade detona a ogiva de fragmentação quando o foguete inimigo está no alcance e, por norma, é num desses fragmentos, em pleno ar, que a maioria dos ataques aéreos palestinianos têm terminado.

Eficácia do sistema posta em causa

Segundo números da "National Interest", uma revista bimensal norte-americana especializada em assuntos internacionais, o sistema intercetou 1700 disparos da Faixa de Gaza, mas também do Líbano e Síria, desde que começou a operar, em março de 2011.

A empresa norte-americana de fabrico de armamento Raytheon, que trabalha em parceria com os israelitas da Rafael Advanced Defense Systems, diz que o sistema tem uma percentagem de sucesso superior a 90%.

Números bem diferentes dos apresentados pela revista sem fins lucrativos "The Conversation", que usa conteúdos de investigadores e académicos. Num trabalho sobre a "Cúpula de Ferro", estima que a percentagem de acerto deve estar, antes, entre os 59 e os 75%. Há académicos norte-americanos ainda mais pessimistas, estimando que a percentagem de sucesso se fique pelos 30 a 40%.

Na manhã de sábado as milícias palestinianas em Gaza dispararam 690 foguetes (240 foram intercetados pelo sistema antimíssil israelita). Contas feitas, isto daria uma percentagem de sucesso de 34,7%, dentro dos valores mais pessimistas e bem abaixo dos oficiais.

Há, no entanto, variáveis que podem alterar substancialmente esta percentagem. Por um lado, a forma como funciona o sistema, que só ataca foguetes que tenham a direção de uma zona populacional, cuja percentagem nestes últimos ataques não é possível aferir. E os números avançados, 690, não especificam o destino dos ataques.

Por outro lado, vários analistas estimam que 75% dos "rockets" disparados pelos palestinianos não chegam ao território de Israel. Olhando para os números de sábado, se três quartos (517) dos 690 foguetes disparados não tivessem chegado ao destino, só restariam 173 para intercetar. E Israel diz que intercetou 240, pelo que a taxa de acerto palestiniana também parece maior do que o estimado pelos analistas.

As limitações da "Cúpula de Ferro"

Nos últimos dois dias morreram 23 palestinianos e quatro civis israelitas, naquele que foi o confronto mais violento na zona desde a guerra de 2014. Os israelitas mortos foram atingidos por "rockets" alegadamente disparados da Faixa de Gaza.

A polícia informou que os foguetes palestinianos atingiram a cidade de Bersheva e a zona industrial de Ahskelon, a localidade mais próxima da fronteira norte da Faixa de Gaza. "Se o disparo for feito a poucos quilómetros não temos tempo de o intercetar", explicou o ex-diretor do Departamento de Investigação em Inteligência Militar de Israel, Yaakov Amidror.

Uma declaração ao jornal "The Jerusalém Post" que ajuda a explicar as vítimas israelitas dos ataques palestinianos. Segundo Yaakov Amidror, os rockets usados pelos palestinianos foram contrabandeados para aquele território antes da mudança de regime no Egito, em 2013, e que outros foram manufaturados na ocasião. "Estão perfeitamente ao nosso alcance", argumentou.

A Cúpula de Ferro, a primeira linha de defesa antiaérea israelita, está desenhada para intercetar "rockets", disparos de artilharia e de morteiro. Pode também intercetar aviões, drones de espionagem, peças de artilharia pesada e até mísseis balísticos, como aconteceu a 20 de janeiro de 2019, quando, alegadamente, destruiu um míssil Fateh, de fabrico iraniano, cujo alcance chega aos 300 quilómetros.

Um sistema muito caro contra foguetes de baixo custo

O custo do sistema não é claro. Segundo dados oficiais, cada míssil intercetador Tamir custa cerca de 30 mil euros. Alguns especialistas dizem que esse valor está muito abaixo do real, que cada unidade pode custar cerca de 150 mil euros.

Talvez no meio esteja a virtude. Eli Bar-On, economista especializado em sistemas de defesa, e Eli Meron, físico-químico e ex-oficial do Exército israelita, escreveram um artigo para o "Israel Hayom", um jornal gratuito israelita, em que abordam os custo da "Cúpula de Ferro".

Segundo aqueles especialistas, cada interceção custa cerca de 75 mil euros. Contas feitas, as 240 interceções bem-sucedidas deste fim de semana terão custado cerca de 18 milhões de euros ao estado de Israel. Se for necessário recorrer à Funda de David, um sistema móvel antimíssil superior à "Cúpula de Ferro", e ao Arrow 2, uma família de mísseis antibalístico israelita, o custo de intercetar um foguete palestiniano pode chegar quase aos dois milhões de euros por unidade.

Acresce o custo das baterias que acomodam os mísseis Tamir e a própria operação de interceção são também elevados. Segundo dados do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, um "think tank" norte-americano, cada bateria custa cerca de 100 milhões de euros.

"Usar um sistema caro de mísseis para intercetar quantidades massivas de foguetes baratos ou barragens de morteiros é economicamente ineficiente, embora derrube a maior parte dos rockets que representam um perigo para a vida humana", resumem Bar-On e Meron.

EUA já apoiaram sistema com mais de mil milhões de euros

Segundo a Raytheo, a Cúpula de Ferro é o sistema antimíssil mais usado do Mundo. A propalada, e também questionada, percentagem de sucesso suscitou o interesse dos EUA.

Segundo um relatório da Defesa que chegou à comunicação social, os EUA requisitaram fundos ao Congresso para comprar 240 mísseis Tamir, doze lançadores, dois radares e centros de comando, num negócio que pode render aos israelitas cerca de 373 milhões de dólares (cerca de 332 milhões de euros).

Não se fica por aqui o "lucro" israelita nos negócios com o "Tio Sam". Inicialmente um projeto inteiramente israelita, concebido e construído pela Rafael Advanced Defense Systems, a "Cúpula de Ferro" começou a ser apoiada pelos EUA em 2011. Em sete anos, os norte-americanos investiram no projeto 1,5 mil milhões de dólares (cerca de 1340 milhões de euros), a troco de acesso à tecnologia.

A empresa norte-americana Raytheon começou trabalhar com a RADS em 2014, tornando-se o segundo fornecedor de componentes para o Tamir. De acordo com a "National Interest", neste momento, a Raytheon produz cerca de 70% dos componentes do Tamir.