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Compra de 35 mil doses de Viagra pelas Forças Armadas do Brasil deixa Governo sob fogo

Compra de 35 mil doses de Viagra pelas Forças Armadas do Brasil deixa Governo sob fogo

As Forças Armadas do Brasil aprovaram a compra de 35 mil unidades de Viagra. Deputados da Oposição pediram explicações ao Governo e o Ministério da Defesa justificou-se com o tratamento de hipertensão arterial pulmonar, uma doença que, segundo os especialistas, não é comum e atinge mais mulheres do que homens. As doses, dizem, também não batem certo.

Dois deputados federais do Brasil pediram ao Ministério Público do país que investigue a compra avultada de Viagra pelas Forças Armadas, denunciando ainda indícios de sobrefaturação de 143% nas aquisições. A aquisição do medicamento foi inicialmente divulgada por Elias Vaz na segunda-feira, com base em dados do portal da transparência e do painel de preços da administração de Bolsonaro, que mencionam a aquisição de 35.320 comprimidos de "sildenafila" (de 25 e 50 mg), substância genérica do Viagra. Do total de unidades, 28.320 eram destinadas à Marinha, cinco mil ao Exército e duas mil à Força Aérea.

"Precisamos de entender porque é que o governo Bolsonaro está a gastar dinheiro público para comprar Viagra e nessa quantidade tão alta. As unidades de saúde de todo o país enfrentam, com frequência, falta de medicamentos, como insulina, para atender pacientes com doenças crónicas e as Forças Armadas recebem milhares de comprimidos de Viagra. A sociedade merece uma explicação", considerou, em comunicado, o deputado Elias Vaz, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), que, mais tarde, deu conta de um problema "ainda maior".

"Viagra superfaturado! Depois de denunciar que o governo Bolsonaro está a gastar dinheiro público para comprar Viagra para as Forças Armadas, descobri que o problema é ainda maior. Há suspeitas de superfaturamento de 143%. Eu e o deputado Marcelo Freixo vamos pedir providências para o Ministério Público Federal", avançou.

Marcelo Freixo, do mesmo partido, reforçou que a aquisição do fármaco foi feita em abril de 2021, pouco depois de o Governo ter recusado a compra de vacinas contra a covid-19 e antes de se recusar a distribuir gratuitamente absorventes menstruais a mulheres sem capacidade financeira.

Governo justifica-se com Hipertensão Pulmonar mas especialistas não validam

Em reação, o ministério da Defesa indicou que o medicamento, o mais popular entre os remédios para a disfunção erétil, é recomendado pelas autoridades de saúde do país também para tratar problemas de hipertensão pulmonar arterial.

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"A aquisição de sildenafila visa o tratamento de pacientes com Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP). Esse medicamento é recomendado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento de HAP. Por oportuno, os processos de compras das Forças Armadas são transparentes e obedecem aos princípios constitucionais", esclareceu. A Marinha, braço das Forças Armadas a quem calhou a maior fatia da encomenda, indicou ainda que a HAP é uma "doença grave e progressiva que pode levar à morte".

Acontece que, embora a substância em causa possa realmente servir para o tratamento da HAP, os especialistas ouvidos pela imprensa brasileira dizem que, nas dosagens previstas na aquisição, o remédio não é adequado. Ao "G1", o portal de notícias da Globo, a Sociedade Brasileira de Cardiologia esclareceu que o fármaco "faz parte do arsenal terapêutico para tratar hipertensão pulmonar, mas em casos extremamente selecionados, que requerem análise prévia de um especialista". "A dose preconizada de sildenafila para tratamento da hipertensão pulmonar é de 20 mg e a dose do Viagra [para disfunção erétil] é 25 mg", disse o médico Marcelo Bandeira, acrescentando que só quando há falta do medicamento de 20 mg é que se admite o uso em doses maiores - posição partilhada também pela Comissão de Circulação Pulmonar da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

"A sildenafila foi libertada em bula para hipertensão arterial pulmonar na dose de 20mg, que pode ser receitada de 8/8 horas até ao máximo de quatro comprimidos. A programação terapêutica é feita com essa dose. Usar doses de 25mg [como a do Viagra] não traz impactos graves à saúde, porém, segue programação e posologias diferentes das estudadas, com doses excedentes ou inferiores às recomendadas", afirmou Verónica Amado, em declarações ao jornal "O Globo".

Por outro lado, também ouvida pelo "G1", a pneumologista Margareth Dalcolmo chamou a atenção para o facto de a HAP ser "uma doença incomum, que depende de diagnóstico relativamente sofisticado e que acomete gente mais jovem, entre 20 e 40 anos, principalmente mulheres". "Na população geral, a incidência da HAP é pequena: 1 caso em cada 250 mil pessoas, sendo que, na proporção, são cinco mulheres com a doença para apenas um homem com a doença", notou a especialista.

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