Coronavírus

Covid espalha-se mais nas zonas da Alemanha que simpatizam com a extrema-direita

Covid espalha-se mais nas zonas da Alemanha que simpatizam com a extrema-direita

Correlação é muito significativa, dizem estudos e especialistas alemães. Nas regiões mais afetadas é onde há mais votos na AfD.

O distrito de Regen, região da Baviera, na Alemanha, teve a maior taxa de incidência de covid alemã na terça-feira, com 579 novos casos de contaminação. Há três anos, aquele distrito deu ao AfD, Alternativa para a Alemanha, partido de extrema-direita que é islamofóbico e anti-imigração, a sua votação mais alta na eleição na Baviera, com mais de 16% de votos.

Outro exemplo: em Gelsenkirchen, o maior reduto da AfD no estado mais populoso da Alemanha, a Renânia do Norte-Vestfália, a taxa de incidência é três vezes maior do que na cidade vizinha de Muenster (169 contra 56). Entretanto, nos distritos com as taxas de infeção mais baixas, como no estado de Schleswig-Holstein, a votação da AfD é inferior a 8%.

Há aqui uma relação direta? "É impressionante verificar que as regiões mais afetadas sejam aquelas com os votos mais altos da AfD" nas eleições gerais de 2017, disse à agência de notícias AFP Marco Wanderwitz, o comissário do governo para os antigos estados da Alemanha Oriental.

Enquanto a Alemanha luta contra uma segunda onda de Covid-19 (1,2 milhões de infetados entre 83 milhões de habitantes; e mais de 20 mil mortos), um padrão começa a surgir: muitas das regiões mais atingidas pela doença do novo coronavírus são também aqueles onde é mais forte o apoio à extrema-direita, incluindo a Saxónia, região que teve a maior taxa de incidência diária de casos na Alemanha, 319 na terça-feira, muito acima da média nacional de 114, de acordo com o centro de controle de doenças do Instituto Robert Koch.

Relação é forte

O Instituto para a Democracia e Sociedade Civil de Jena está a estudar a "correlação estatística forte e muito significativa" entre o apoio da AfD e a intensidade da pandemia, revelou no Twitter o diretor do organismo, Matthias Quent. A tendência é significativa e mais pronunciada nesta segunda onda da Alemanha.

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A situação da covid-19 na Saxónia tornou-se tão crítica que as autoridades locais anunciaram na terça-feira uma série de restrições mais severas: fecho de escolas, jardins de infância e muitas lojas que vão permanecer encerradas até à próxima semana, pelo menos.

Em cidades como Goerlitz e Bautzen, onde a extrema-direita atrai mais de um em cada quatro eleitores, a taxa de incidência anda à volta de 500 casos.

Enquanto isso, na capital do estado, Leipzig, onde os verdes estão a vencer a corrida contra a extrema-direita nas sondagens, a taxa de infeção anda próxima da média federal, 140 casos.

Contra as medidas severas

O ceticismo sobre o vírus e as medidas para o conter é predominante na Saxónia, berço do movimento islamofóbico Pegida - incluindo entre equipas médicas e decisores financeiros. Em Bautzen, o célebre empresário Joerg Drews, que tem uma empresa de construção, está a investir em meios de comunicação "alternativos", de acordo com a emissora ARD.

O partido AfD, que é o mais critico das medidas governamentais de contenção do vírus, é o único que demonstrou abertamente ceticismo e oposição às restrições. Os legisladores da AfD expressaram mesmo oposição ao uso de máscaras na câmara baixa do Parlamento do Bundestag, por exemplo, e um deles classificou as máscaras como "burcas para todos".

Mais da metade dos eleitores da AfD (56%) considera excessivas as restrições da Alemanha ao vírus, de acordo com uma sondagem recente da Forsa.

O partido de extrema-direita também têm sido ligado ao movimento Querdenker ("Pensadores Laterais" em tradução direta) outro grupo ligado à maioria das manifestações contra o fecho da Alemanha no surto do coronavírus. Quase um terço desses manifestantes planeia votar no AfD nas eleições nacionais de 2021, diz um estudo publicado pelo jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung.

"A ligação entre os teóricos da conspiração e a cena da extrema-direita infelizmente é lógica, porque eles partilham muitas teorias", disse à AFP Miro Dittrich, investigador da Fundação Amadeu Antonio que luta contra o racismo e o extremismo. E "ambos acreditam que uma pequena elite está a controlar secretamente os acontecimentos em detrimento dos alemães", disse.

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